A Armadilha Malthusiana | A Autoaniquilação da Raça Humana

Tempo de Leitura: 9 Minutos

Provavelmente, você se lembra das aulas de biologia e daquelas imagens microscópicas de células se multiplicando. Você começa com um par de células: cada uma se divide para formar outro par; multiplicam-se rapidamente, segundo a segundo, espalhando-se pelos cantos da placa de Petri até preencherem-na completamente e não haver mais espaço. E então, o que acontece?

Agora, vejamos o caso dos humanos. Eles também se reproduzem em ritmo exponencial. Será que estamos nos expandindo tão depressa que não conseguiremos nos sustentar? Há dois séculos, o economista inglês Thomas Malthus estava convencido de que estávamos. Calculou que os humanos estavam crescendo muito mais depressa do que suas fontes de alimentação. Em termos mais específicos, teve a ideia de que a população humana estava crescendo geometricamente (ou seja, por múltiplos – 2,4,8,16,32…), enquanto os alimentos disponíveis para os humanos aumentavam aritmeticamente (ou seja, por adição – 2,4,6,8…)

Como disse o próprio Malthus em seu Ensaio sobre o princípio da população, de 1798, o homem precisa de alimento para sobreviver, e o homem está se multiplicando num ritmo acelerado. Ele concluiu:

“Afirmo que o poder [de crescimento] da população é infinitamente maior do que o poder que tem a terra de produzir meios de subsistência para o homem. A população, se não for controlada, aumenta em progressão geométrica. Os meios de subsistência aumentam apenas em progressão aritmética. Uma pequena familiaridade com os números já mostra a imensidade do primeiro poder em relação ao segundo.”Thomas Malthus

A seu ver, a raça humana estava rumando para uma ruína inevitável. A menos que reduzisse voluntariamente a taxa de natalidade (o que considerava inconcebível), a população humana sofreria um entre três males nada palatáveis impostos pela natureza para mantê-la dentro de certos limites sustentáveis: fome, doença ou guerra. As pessoas não conseguiriam comer, sucumbiriam a alguma praga ou lutariam umas com as outras para obter recursos cada vez mais escassos.

Dá para entender por que a armadilha malthusiana costuma ser chamada de catástrofe ou dilema malthusiano. Esse problema profundo é usado até hoje por diversos especialistas que defendem a necessidade de controlar o tamanho da população mundial. É uma ideia que tem sido adotada por muitos movimentos ambientalistas para ilustrar a insustentabilidade da raça humana.

Problemas com a Teoria

Mas Malthus estava enganado. Desde o momento em que encostou a pena no papel, a população global, que achava que estava atingindo um apogeu natural, passou de 980 milhões para 6,5 bilhões. A projeção é de mais de 9 bilhões por volta de 2050. Mas a maioria das pessoas do planeta se alimenta melhor, é mais saudável e longeva do que antes. Malthus estava errado em dois pontos:

1. Os próprios seres humanos têm experiência em idealizar tecnologias que resolvem esses problemas. Graças, em parte, às leis de oferta e demanda, que estimularam os produtores a encontrar meios melhores e mais eficientes de gerar alimentos, o mundo tem visto uma série de revoluções agrícolas, cada uma aumentando drasticamente os recursos disponíveis. Com a ajuda do mercado, os seres humanos resolveram o problema do alimento.

2. A população não aumenta sempre de forma exponencial. Tende a se estabilizar naturalmente após certo tempo. Ao contrário das células, que se multiplicam até ocuparem toda placa, os humanos tendem, após atingir certo nível de afluência, a se reproduzir menos. Com efeito, a fertilidade humana tem caído significativamente nos últimos tempos, e as taxas de natalidade no Japão, Canadá, Brasil, Turquia e Europa mostram-se insuficientes para impedir a depopulação. O fato de a vida estar durando mais significa que a população está ficando lentamente mais velha, mas isso já é outra história (ver, Pensões e o Estado de Bem-Estar Social)

Em seu controvertido livro A Farewell to Alms, o historiador econômico Gregory Clark alega que até 1790 o homem estava mesmo preso em uma armadilha malthusiana, mas, em virtude de uma combinação posterior de fatores – entre os quais o infortúnio da morte de pobres causada por doenças, a necessidade de substituí-los por crianças das classes alta e média (“mobilidade social descendente”) e a propensão dessas classes a trabalhar mais -, a Inglaterra escapou dela. Afirma que muitas partes do mundo que não passaram por essa experiência permanecem presas à armadilha.

Todavia, o que certamente não estava errado era a teoria por trás do malthusianismo: a lei dos retornos decrescentes. Ela traz lições importantes para as empresas. Vejamos o caso de uma pequena fábrica ou propriedade rural. O dono decide acrescentar à equipe um funcionário a cada semana. No começo, todo empregado novo provoca um grande aumento na produção. Algumas semanas depois, porém, percebe-se que cada empregado novo faz um pouco menos de diferença que o anterior. Não há tanta diferença que um par de mãos extra possa fazer quando há um número finito de pastos ou de máquinas para trabalhar.

Apocalipse Onde?

A forma como a maior parte do que chamamos hoje de mundo ocidental (Europa, EUA, Japão e um punhado de outras economias avançadas) escapou da armadilha malthusiana foi aumentar a produtividade agrícola; além disso, à medida que ficavam mais ricas, as pessoas tinham menos filhos. Isso, juntamente com a invenção de novas tecnologias, ajudou a provocar a Revolução Industrial e acabou elevando ainda mais os níveis de riqueza e de saúde. Infelizmente, ainda há regiões do mundo presas à armadilha.

Em muitos países da África subsaariana, a terra produz tão pouco alimento que a grande maioria da população precisa trabalhar em agricultura de subsistência. Quando elevam a produção agrícola, usando novas tecnologias para conseguir colheitas mais abundantes, suas populações crescem e as fomes que costumam se seguir aos anos de colheitas fracas impedem a população de crescer e de enriquecer nos anos seguintes.

Apocalipse Quando?

Os neomalthusianos argumentam que, apesar da engenhosidade humana ter conseguido retardar a catástrofe por dois séculos, estamos agora à beira de outra crise. Dizem que, apesar de os argumentos de Malthus fundamentarem-se nos alimentos, seria perfeitamente possível inserir o petróleo e as fontes de energia como os principais “meios de subsistência do homem”. As reservas de petróleo estão prestes a se esgotar e outras fontes de energia alternativas como biocombustível, energia eólica, etc., ainda não podem ser usadas em escala industrial.

Assim, é possível que o gás natural seja considerado a fonte de energia mais demandada como sucessor natural do petróleo, sobretudo porque suas reservas são tão grandes que podem satisfazer as necessidades da atual civilização em combustível por pelo menos mais 250 anos, caso seja mantido o ritmo atual de consumo. Com o ponto do “pico do petróleo” próximo de nós, ou mesmo no passado recente, a população global não tardará em atingir níveis insustentáveis. Resta ver se, desta vez, o que vai impedir Malthus de mostrar que estava certo será o progresso tecnológico ou a limitação da população.

Curiosidade: O Fim do Petróleo

Vivemos uma época em que toda economia e toda produção, tudo o que usamos e fazemos está de alguma forma ligada aos combustíveis fósseis (carvão mineral, gás natural e petróleo). O petróleo é o principal e sem ele haverá um corte em mais de 500.000 produtos industrializados derivados dele. Incluindo eletrônicos e farmacêuticos. Não só o fornecimento irá diminuir, mas a escassez e os preços elevados atrapalharão toda a indústria. E não estamos só falando dos chicletes que gostamos de mascar, vão desaparecer das prateleiras:

Produtos Alimentícios: Como dito acima, teremos um problema sério de produção e distribuição de comida. O geologista Dale Allen Pfeiffer em seu artigo “Eating Fossil Fuels”, calculou que usamos cerca de 10 calorias dos combustíveis fósseis para produzir uma única caloria em alimentos.

Embalagens: Borracha sintética, isolamento, vedação e tudo que é feito de plástico ou borracha sintética.

Produtos Farmacêuticos: Muitos remédios são dependentes do petróleo incluindo muitos analgésicos (como a aspirina) e anti-inflamatórios (como o ibuprofeno). Não apenas a produção, mas o transporte, conservação e esterilização ficarão comprometidas. Sem contar as seringas, luvas cirúrgicas, próteses, embalagens de soro e sangue e demais apetrehcos hospitalares.

Minérios: Cobre, ouro, prata, platina e muitos outros minearias são descobertos, transportados e processados usando maquinário pesado que queima combustível fóssil. Sem cobre e prata não é possivel construir motores solares ou eólicos. Sem urânio, não é possivel produzir energia nuclear.

Eletrônicos: Smarthphones, televisão, video-games, tablets e computadores usam a energia e componentes que só temos graças ao petróleo e aos minérios mencionados acima.

Produtos de Beleza: batons, base, rímel, delineador, protetor solar, hidratante, perfumes e gel de cabelo.

Vestuário: Roupas e tecidos feitas de fibras sintéticas como o acrílico, laycra, nylon, jeans, tactel, elastano, stretchy, poliéster e algodão revestido com formaldeído. Também estão na conta os sapatos, tênis e chinelos que usam borracha sintética ou outro derivado.

Produtos de Limpeza e Higiene: como detergentes, anti-sépticos, sabonetes, condicionador de cabelo, xampu e creme dental.

Construção: Seja no campo da construção civil ou industrial o petróleo é usado para produção de asfalto, tintas, solventes e outros produtos.

Distribuição de Gás: O nome oficial do gás de cozinha é GLP, que quer dizer: Gás Liquefeito de Petróleo. Nada mais precisa ser dito aqui.

Distribuição de Água: A falta de petróleo também afetará a construção e manutenção de diques, represas, estações de tratamento, barragens, canalizações e até mesmo poços.

Distribuição Elétrica: Considere que hoje todos os fios são isolados com petróleo. Todas as tomadas e plugues são de plástico e mesmo as usinas hidrelétricas dependem de diques, computadores, isolantes e turbinas que exigem manutenção periódica.

Assim, não passamos um dia sem consumir alguma coisa que dependa direta ou indiretamente do petróleo. Pessimistas como petrolífero americano Richard Duncan acha que entraremos em uma fase que ele chama de “Idade da Pedra Pós-Industrial”, outros mais otimistas como Jean H. Laherrere, petrolífero francês, imagina que o mundo entrará em uma era semelhante a Europa da década de 1950.

2 Responses

  1. Economia Ambiental
    | Responder

    […] problemas ambientais aparentemente insolúveis. Basta lembrar das previsões apocalípticas de Thomas Malthus e compará-las com o resultado final, bem mais feliz, para perceber que o mercado tende a […]

  2. Rafael
    | Responder

    Artigo fenomenal, muito obrigado pelas informações

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