A Mão Invisível | O Papel do Interesse Pessoal

Tempo de Leitura: 5 Minutos

A “mão invisível” é uma forma sintética de expressar a lei da oferta e da demanda, e explica como o “puxa e empurra” desses dois fatores serve para beneficiar toda a sociedade. Em termos simples, o conceito é o seguinte: não há nada de errado se as pessoas agem em interesse pessoal. Num mercado livre, a força combinada de todos que lutam por seus interesses individuais beneficia a sociedade como um todo, enriquecendo todos.

Smith usou a frase apenas três vezes em sua obra-prima “A riqueza das nações”, de 1776, mas um trecho fundamental realça sua importância:

[O indivíduo] não tem a intenção de promover o interesse público, nem sabe o quanto o promove.. ao dirigir [sua] atividade de maneira a valorizar ao máximo a sua produção, visa apenas seu próprio lucro, e nisto, como em muitos outros casos, é guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção… Ao buscar seu interesse pessoal, frequentemente ele promove o da sociedade de maneira mais eficiente do que quando de fato tem a intenção de promovê-lo. Nunca soube de bons feitos por parte daqueles que afetam as trocas em nome do bem público.

A ideia ajuda a explicar por que os mercados livres têm sido tão importantes para o desenvolvimento de sociedades modernas complexas.

Aprendendo com a mão

Vamos tomar como exemplo um inventor, Thomas, que teve a ideia de criar um novo tipo de lâmpada, mais eficiente, duradoura e luminosa que as demais. Ele o fez para atender a seu interesse pessoal, esperando ficar rico ou talvez famoso. O sub-produto será o benefício da sociedade como um todo, criando empregos para aqueles que produzem as lâmpadas e melhorando a vida (a a sala de visitas) daqueles que as compram. Se não houvesse demanda para a lâmpada elétrica, ninguém teria comprado de Thomas e, na verdade, a mão invisível teria lhe dado um tapa por cometer tal erro.

Felizmente, Thomas conseguiu se estabelecer, outros podem vê-lo ganhar dinheiro e, assim, tentar superá-lo criando lâmpadas melhores e mais luminosas, de maneira que também começam a ganhar dinheiro. Entretanto, a mão invisível nunca dorme. Thomas reduz seus preços, que ficam abaixo da concorrência, garantindo mais vendas. Os consumidores, encantados, beneficiam-se de lâmpadas ainda mais baratas.

Em cada estágio do processo, Thomas estaria atuando segundo seu interesse pessoal, e não o da sociedade, mas, contrariamente ao que sugeriria a intuição, todos se beneficiariam disso. De certo modo, a teoria da mão invisível é análoga à ideia da matemática – dois negativos produzem um positivo. Se uma pessoa age em seu próprio interesse, mas todos os demais estão sendo altruístas, a sociedade não terá benefícios.

Outro exemplo é o da Coca-Cola, que mudou a receita de seu refrigerante efervescente na década de 1980 para atrair bebedores mais jovens e interessantes. No entanto, a New Coke foi um completo desastre: o público não gostou da mudança e as vendas despencaram. A mensagem da mão invisível foi clara, e a Coca-Cola, com lucros em queda, tirou a New Coke do mercado após alguns meses. A versão anterior tornou a circular, e os consumidores ficaram felizes – bem como os diretores da Coca-Cola, uma vez que seus lucros voltaram a crescer rapidamente.

“O consumo é o único fim e propósito de toda produção” – Adam Smith

Smith admitiu que havia circunstâncias nas quais a teoria da mão invisível não funcionava. Entre elas, um dilema conhecido como “tragédia dos comuns”. O problema é que, quando existe uma oferta limitada de determinado recurso, como pastos em uma área comum, aqueles que exploram a terra fazem-no em detrimento de seus vizinhos. É um argumento que tem sido usado com veemência por aqueles que fazem campanhas contra as alterações climáticas.

Limites aos Mercados Livres

Apesar de a ideia da mão invisível ter sido aproveitada ocasionalmente por políticos de direita nas últimas décadas, não é uma teoria que representa necessariamente uma posição política específica. É uma teoria econômica positiva, embora desautorize seriamente aqueles que pensam que as economias podem ser mais bem administradas de cima para baixo, com os governos decidindo o que deve ser produzido.

“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o jantar, mas da consideração que eles têm por seus próprios interesses. Apelamos não à sua humanidade mas ao seu amor-próprio, e nunca lhes falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter” – Adam Smith.

A mão invisível destaca o fato de que os indivíduos – e não governos ou administradores – deveriam poder decidir o que produzir e consumir, mas há algumas condições importantes. Smith tomou o cuidado de distinguir o interesse pessoal da pura cobiça egoísta. É de nosso interesse pessoal ter um conjunto de leis e regulamentos que nos protejam de sermos tratados injustamente como consumidores. Incluem-se aí os direitos de propriedade, patentes, direitos autorais e leis que protegem os trabalhadores. A mão invisível precisa ser apoiada pela regra da lei.

3 Responses

  1. […] agentes de marketing externos, para os quais essas informações são muito valiosas. Por causa da mão invisível, ambas as partes da equação se beneficiam, reagindo a fortes incentivos em cada etapa do […]

  2. […] donos do que se estivermos simplesmente morando como inquilinos. O cenário alternativo é a “tragédia dos comuns” – situação na qual as pessoas abusam de certo recurso porque não o […]

  3. Economia Ambiental
    | Responder

    […] a demanda por ela aumenta – é um elemento central da teoria da mão invisível proposta por Adam Smith. Se todos forem egoístas, os mercados vão produzir o que as pessoas querem e isso contribuirá […]

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