Libor | A Taxa de Juros dos Mercados Monetários

Libor | A Taxa de Juros dos Mercados Monetários

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Num discreto prédio de escritórios em algum lugar nas docas de Londres, um pequeno grupo de pessoas tem a incumbência de produzir aquele que talvez seja o número mais importante do mundo. Esse número, fixado diariamente às onze da manhã, terá consequências imensas para o mundo: vai causar a bancarrota de alguns e fará com que outros ganhem milhões. É algo que faz parte das fundações do capitalismo. Contudo, muito poucas pessoas fora dos mercados financeiros o conhecem. É Libor (acrônico de London Interbank Offered Rate), a taxa de juros interbancária do mercado de Londres.

A taxa Libor, administrada pela Associação de Bancos Britânicos, está no centro de um dos principais setores da economia mundial – o mercado monetário. É nele que as empresas tomam e emprestam dinheiro no curto prazo – noutras palavras, sem precisar recorrer à emissão de títulos ou participações. Esses mercados são o sistema nervoso central do sistema financeiro mundial, e, quando falham, o que acontece ocasionalmente, podem causar um choque em toda a economia.

Em tempos normais, a Libor simplesmente reflete a taxa com que os bancos estão dispostos a emprestar dinheiro uns aos outros no curto prazo. Estes empréstimos – chamados de empréstimos interbancários – não têm respaldo: são mais como um cheque especial ou um cartão de crédito do que uma hipoteca, e são essenciais para o funcionamento dos bancos. Todos os dias, o balancete dos bancos muda significativamente com os depósitos, retiradas, empréstimos ou pagamentos, e a capacidade de tomarem dinheiro emprestado dos outros bancos é essencial para que se mantenham funcionando corretamente.

 

O Poder da Libor

Os mercados monetários atacadistas tornaram-se tão poderosos e amplos que as taxas Libor – fixadas para as mais importantes moedas do mundo, inclusivo o dólar, o euro e a libra – estão no cerne de contratos valendo cerca de US$ 300 trilhões – o que equivale a US$ 45.000,00 para cada ser humano do planeta. A maioria das pessoas pensa em taxas de juros como aquelas estabelecidas pelos bancos centrais, como o Federal Reserve, Banco Central do Brasil ou o Banco da Inglaterra. Na verdade, a Libor é uma indicação bem melhor do verdadeiro custo dos empréstimos na economia como um todo.

 

A maneira pela qual os bancos operam sofreu diversas transformações nas últimas décadas. Tradicionalmente, os bancos ganhavam dinheiro recebendo os depósitos dos clientes na forma de poupança e emprestavam esse dinheiro para outros clientes na forma de crédito imobiliário e de outros tipos de empréstimo. Por um lado, isso significa que, assim como George Bailey (interpretado por James Stewart) tenta acalmar os depositantes que estão sacando freneticamente seu dinheiro em “A Felicidade Não se Compra” (1946), os bancos tinham uma conexão direta – muitas vezes, um relacionamento pessoal – com seus clientes. Por outro lado, esse modus operandi não dava aos bancos muitas oportunidades para crescer como desejavam, porque os reguladores criaram regras sobre o valor que poderiam emprestar em relação a seu porte. Isso, por sua vez, significava que as taxas de juros cobradas em financiamentos hipotecários não eram baixas.

O Surgimento da Securitização

Muitos desses bancos ou instituições hipotecárias foram organizados como associações mútuas, o que significa que não pertenciam a acionistas, mas a seus clientes. No Reino Unido, as instituições especializadas em créditos hipotecários eram conhecidas como cooperativas habitacionais, incluindo companhias como Nationwide e Northern Rock (atualmente Virgin Money).

No entanto, nas décadas de 1970 e 1980, com o aumento na demanda pela casa própria, os bancos perceberam que seria difícil acompanhar esse ritmo sem aumentar a quantidade de dinheiro disponível para empréstimos e recorreram a um sistema alternativo. Em vez de emprestarem dinheiro apenas com base em seus depósitos, começaram a consolidar em pacotes a dívida hipotecária que estavam emitindo, vendendo-a para outros investidores. Esse processo ficou conhecido como securitização – pois transformava a dívida em securities, instrumentos de investimento como títulos, opções, ações, etc. Isso funcionou muito bem durante algum tempo. Tirando as dívidas hipotecárias de seus livros contábeis, os bancos conseguiram fazer mais empréstimos, e de maior valor, se serem limitados por seu tamanho. Investidores do mundo todo fizeram fila para comprar esses títulos, atraídos por seu retorno substancial e pela garantia dada pelas agências de classificação de crédito que diziam que eram investimentos confiáveis.

Com o tempo, os bancos foram ficando cada vez mais sofisticados na criação desses investimentos. Não bastasse reunirem os créditos hipotecários em pacotes, fatiaram-nos e dividiram-nos em instrumentos conhecidos como obrigações de dívida colateralizadas (com sigla em inglês CDO) e versões ainda mais complexas como CDOs2 (fatiadas e divididas duas vezes) e CDO3 (três vezes).

A teoria por trás disso parece bem sensata. Antes, quando alguém deixava de pagar uma dívida hipotecária, quem mais sofria era o banco; a securitização prometia difundir o risco pelo sistema financeiro para aqueles com mais disposição de assumi-lo. O problema, no entanto, é que, ao eliminar o relacionamento pessoal entre credor e devedor (processo conhecido como desintermediação), é bem mais provável que aqueles que compram pacotes de dívidas – sejam investidores japoneses, sejam fundos europeus de pensão -, na verdade, não vão saber os riscos que estão assumindo. O que podem fazer é confiar nas classificações de agências como Standard & Poors, Fitch, Moody’s e outras.

Essa desconexão foi uma das principais causas da crise financeira da década de 2000, pois os investidores não tinham plena consciência da escala de risco que estavam assumindo ao adquirir pacotes de dívidas imensamente complicadas. Como os bancos estavam emprestando bem mais do que tinham em depósitos, desenvolveram um déficit grave em suas contas – um buraco conhecido como lacuna de financiamento -, que só pode ser corrigido com um grande financiamento. E, como veremos, isso não aconteceu.

O Dia que Mudou o Mundo

A Grande Aposta‘, baseado no romance de Michael Lewis, “The Big Short“, mostra a estratégia de alguns fundos e corretoras que apostaram contra o mercado imobiliário nos Estados Unidos e conseguiram lucrar com isso. Os fundos de investimentos Scion Capital e Cornwall Capital e a corretora Frontpoint Partners compraram CDSs (Credit Default Swap), um seguro contra a desvalorização dos CDOs . A Frontpoint também fez vendas a descoberto de todos os papéis relacionados ao mercado de hipotecas. Essas empresas compartilhavam da ideia de que muitas pessoas que trabalhavam no mercado financeiro não conseguiam entender o que estavam fazendo. A máquina das hipotecas subprime estava em ação e em movimento novamente, como se nunca tivesse quebrado (Em 1998, a Rússia declarou moratória e um fundo de hedge chamado Long Term Capital Management foi à falência. Na busca por segurança, os primeiros a conceder empréstimos subprime tiveram seus pedidos de capital negados e logo foram à falência em massa).

Porém, em 9 de agosto de 2007, tanto os mercados interbancários quanto os mercados de hipotecas securitizadas paralisaram-se repentinamente no mundo todo. Percebendo que o mercado imobiliário dos EUA estava prestes a sofrer uma queda considerável e que, o que era mais grave ainda, o sistema financeiro ocidental tornara-se excessivamente endividado, os investidores pararam de comprar títulos – noutras palavras, pararam de emprestar dinheiro. Foi um momento de medo que provocou a crise financeira que se seguiu: o momento em que os economistas e financistas, que até então não tinham prestado muita atenção nessa parte complexa do sistema, deram-se conta de sua importância para a saúde da economia mundial.

Muitos bancos dos dois lados do Atlântico, inclusive o Northern Rock, viram-se subitamente incapazes de se financiar nos mercados atacadistas e ficaram com um buraco muito grande em suas contas. Apesar de a crise financeira ter muitas causas, foi esse congelamento dos mercados financeiros que fez com que os primeiros choques fatais se espalhassem pelo sistema. Apenas um mês depois, o Northern Rock foi forçado a buscar o financiamento de emergência do Banco da Inglaterrra, que atuou como emprestador de último recurso. Muitos acreditaram que o problema foi causado especificamente por hipotecas subprime (financiamentos imobiliários concedidos a devedores pouco solventes), mas o verdadeiro problema do Northern Rock foi a completa dependência dos mercados atacadistas quando as taxas Libor tinham subido, refletindo a relutância dos bancos em emprestarem dinheiro uns aos outros.

A taxa Libor é apenas uma taxa indicativa, mostrando em teoria o que os bancos estariam dispostos a cobrar uns dos outros. Nesse caso, não havia empréstimo algum. Os bancos centrais foram forçados a intervir e injetar dinheiro diretamente nos mercados e nos bancos. Os mercados monetários tinham secado!

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