Bancos | As Artérias do Sistema Financeiro de um País

Bancos | As Artérias do Sistema Financeiro de um País

Tempo de Leitura: 10 Minutos

As empresas, diferentemente das pessoas, não são todas iguais. Há empresas das quais sentiríamos falta se deixassem de existir, mas a vida seguiria em frente. Há outras cujo colapso causaria a implosão de grandes segmentos da economia e da sociedade. Os bancos entram nesta segunda categoria.

As empresas que compõem o setor bancário e financeiro não só guardam nossas economias e nos emprestam dinheiro quando necessitamos, como também atuam como o sistema arterial que transporta o dinheiro pela economia, motivo pelo qual costumam ser chamadas de intermediários financeiros. Sua principal função é transferir dinheiro em massa, levando daqueles que querem emprestar até aqueles que desejam pedir empréstimos.

Há séculos, os bancos têm feito parte do tecido social – com efeito, a palavra “banco” vem do latim banca, nome das grandes mesas que os cambistas da antiga Roma montavam nos pátios para comprar e vender moedas estrangeiras.

“Banqueiro é o sujeito que lhe empresta o guarda-chuva quando o sol está brilhando e pede-o de volta no minuto em que começa a chover” – Mark Twain

Para que uma economia – rica ou pobre – funcione adequadamente, precisa contar com um setor financeiro desenvolvido e saudável. Por quê? Porque tanto empresas quanto indivíduos precisam invariavelmente tomar empréstimos para fundar e depois desenvolver negócios decentes, empolgantes, inovadores. Sem os bancos, praticamente ninguém conseguiria comprar um imóvel, pois, para isso, a maioria das pessoas depende de um financiamento hipotecário.

Do mesmo modo, os bancos exercem o importante papel de meio de troca. Tente imaginar um dia de sua vida sem um banco. Usamos cartões de débito e de crédito ou cheques na maioria de nossas compras, e, assim, os bancos estão envolvidos indiretamente em quase todas as transações que fazemos.

Às vezes, os bancos se transformam em gigantes, e recentemente têm feito de tudo, desde gerenciar os investimentos das pessoas até possuir conglomerados industriais e administrar hotéis. Frequentemente, esse nível de poder gera ressentimentos, e algumas pessoas veem os bancos como parasitas – nutrindo-se da riqueza alheia a fim de multiplicar a sua. Em certos casos, esses críticos têm razão. Quando bancos e mais bancos quebraram no final da década de 2000, ficou claro que boa parte de sua expansão não se baseava em algo sólido. Mas a verdade clara é que, sem os bancos, as pessoas não conseguiriam investir ou tomar dinheiro emprestado – ações essenciais para viverem de maneira produtiva e gratificante.

Como os Bancos Ganham Dinheiro?

A estrutura e o modelo básico de negócios de um banco são fundamentalmente os mesmos em qualquer lugar do mundo.

Primeiro, os bancos lucram cobrando juros mais altos do dinheiro que emprestam do que pagam pelo dinheiro depositado. A diferença ou spread entre essas duas taxas permitem-lhes ter lucro pelo serviço proporcionado; quanto maior o risco do tomador (ou seja, quanto pior for sua ficha de crédito), maior a diferença. É por isso que quem financia a aquisição de um imóvel tomando mais de 80% do valor deste paga uma taxa de juros mais alta que outros tomadores. É maior a probabilidade de não conseguirem pagar o empréstimo, acarretando uma perda significativa ao banco.

Além disso, os bancos oferecem aos clientes assessoria financeira e outros serviços, geralmente, mediante uma taxa; às vezes, apenas para estimulá-los a depositar seu dinheiro. Para a pessoa física, isso pode incluir seguros ou assessoria em investimentos. Para as empresas, pode significar ajuda na emissão de ações e títulos (noutras palavras, para obter capital, ligando novamente quem empresta o dinheiro a quem o toma) e aconselhando-as sobre a aquisição de outras empresas. Esse é o principal papel dos bancos de investimentos. Ademais, usam parte de seu superávit para fazer investimentos próprios, com a expectativa de ganharem um pouco mais.

Corrida aos Bancos

O sistema bancário moderno, no qual os bancos têm nos cofres menos do que devem oficialmente a seus clientes, funciona bem quando a economia está bem e os depositantes confiam na segurança de seu dinheiro. Em épocas de crise, o sistema pode falhar calamitosamente se, por algum motivo – rumores de que um banco está prestes a quebrar, por exemplo, ou após um grande assalto ou desastre natural que afeta o banco -, um número muito grande de depositantes tentam sacar seu dinheiro. Dá-se a isso o nome de corrida aos bancos, ilustrada de forma espetacular na corrida de 2007 ao banco Northern Rock, do Reino Unido. Quando os depositantes souberam que o banco precisou do apoio de emergência do Banco da Inglaterra – em seu papel como prestamista em última instância -, milhares de pessoas rapidamente formaram filas para sacar seu dinheiro.

Em virtude do sistema de reservas fracionárias, os bancos modernos não dispõem na mesma hora de dinheiro para pagar todos os seus depositantes ao mesmo tempo. Como empresas, dependem de dinheiro tomado em curto prazo (depósitos) para financiar empréstimos feitos no longo prazo (financiamento hipotecário e créditos de longo prazo). Estes são muito pouco líquidos; por isso, se todos os clientes exigirem seu dinheiro, os bancos ficam à beira de um colapso. É o que teria acontecido com o Northern Rock caso o Tesouro do Reino Unido não tivesse intervido, nacionalizando-o.

Nos primeiros tempos dos bancos, se este quebrasse os poupadores perderiam todo o seu dinheiro. Foi o que aconteceu com muitas pessoas durante a Grande Depressão. Entretanto, percebendo que isso causava inquietude pública e uma corrida aos depósitos ao primeiro sinal de dificuldades de um banco, desde então os governos têm estabelecido esquemas para garantir os depósitos. Nos EUA, o esquema recebe o nome de Corporação Federal de Seguro de Depósito, no Reino Unido chama-se Esquema de Compensação de Serviços Financeiros; ambos protegem depósitos bancários até certo valor (em 2008, respectivamente US$ 250.000 e £ 50.000).

A experiência da crise financeira que começou em 2008 mostrou que os governos farão o que for preciso para garantir que os bancos não quebrem. Quando isso acontece, as consequências para a economia em geral são desastrosas, não só porque prejudica a confiança e os bens dos consumidores, mas também porque causa quedas bruscas na oferta de dinheiro: os bancos injetam moeda em suas reservas e param de emprestar, o que, por sua vez, pode levar à deflação.

Com poder para fazer o dinheiro circular, cuidar das economias de toda uma vida das pessoas, facilitar investimentos e proporcionar as principais artérias para os gastos, não é à toa que os bancos são mais regulados do que qualquer outro negócio. Sua saúde e a da economia estão indissociavelmente ligadas.

 

Reservas Bancárias

A chave das finanças modernas é um sistema de reservas fracionárias. Digamos que em um dado momento você tem R$ 10.000,00 em sua conta-corrente. É pouco provável que vá precisar sacar todo o dinheiro. Embora possa necessitar dessas economias em algum momento, na verdade você saca apenas frações dela no caixa do banco, em uma caixa automático ou pagando com seu cartão de débito.

Por isso, em vez de deixarem o dinheiro parado em seus cofres, geralmente os bancos mantêm apenas uma fração em suas reservas, variando essa quantidade em função da demanda que esperam ter pelo dinheiro. Normalmente, os bancos centrais controlam a quantidade de reservas que os bancos são obrigados a manter: nos EUA, por exemplo, a exigência de reservas fica em torno de 10%, o que significa que um banco com um depósito de R$ 100,00 pode emprestar R$ 90,00.

Economicamente, isso faz sentido. É bem mais eficiente para os bancos usar o dinheiro depositado neles, maximizando seu custo de oportunidade, em vez de deixá-lo parado e ocioso. Entretanto, isso traz importantes efeitos colaterais para a economia como um todo. Quando emprestam esse dinheiro extra, os bancos aumentam a oferta monetária, o que eleva a inflação.

 

O Efeito Multiplicador da Moeda

Imagine o seguinte: Você deposita R$ 1.000,00 no banco. O banco, por sua vez, empresta 90% do dinheiro, ou R$ 900,00, para algum cliente. Esse cliente então usa o dinheiro para comprar uma televisão, por exemplo. Quem vendeu a televisão provavelmente irá depositar o dinheiro no banco. Ou seja, pode-se recomeçar o ciclo várias vezes, multiplicando o dinheiro de forma artificial.

multiplicador-bancario

O dinheiro real não existe, é só um valor no sistema eletrônico do banco. Quando o cliente saca alguma quantia, na verdade ele está pegando o dinheiro existente da reserva que o banco mantém dos vários clientes. O problema é: e se todos os clientes, de repente, exigissem o seu dinheiro de volta? O banco não teria como fazer isso, pois só tem uma porção desse dinheiro.

No exemplo acima, o banco poderia emprestar seu dinheiro 110 vezes e, a cada novo empréstimo 10% ficaria no banco e 90% “circulando” por aí, no final do ciclo, a soma conjunta dos 10% de todos os empréstimos que ficaram no banco somam R$ 1.000,00 mas a criação de moeda, ou seja, o valor que o banco deve para essas 110 pessoas é igual a R$ 10.000,00. Assim, dos R$ 1.000,00 iniciais o banco criou R$ 9.000,00.

Esse é um dos problemas, muito criticado, do sistema bancário mundial. A multiplicação descontrolada de dinheiro pode causar muitas falências de bancos, empresas, pessoas e até países quando há uma crise financeira.

Um instrumento de contenção da multiplicação de moeda escritural é o depósito compulsório, empregado pelos Bancos Centrais de todo o mundo para limitar a sua criação.

Sistema de Transferência de Reservas no Brasil

A eficiência do sistema de pagamentos de um país depende, dentre outros fatores, de uma estrutura adequada de contas de liquidação no banco central.

Essa estrutura é definida por critérios de acesso estabelecidos com base na maturidade do sistema financeiro de cada país, tendo como objetivos precípuos a solidez, o bom funcionamento e o contínuo aperfeiçoamento do sistema de pagamentos.

A manutenção de uma conta no BC permite ao participante ter acesso direto ao Sistema de Transferência de Reservas – STR e possibilita que liquide diretamente suas operações interbancárias.

O STR é um sistema de liquidação bruta em tempo real (LBTR) de transferência de fundos entre seus participantes, gerido e operado pelo Banco Central do Brasil.

As transferências de fundos, no âmbito do STR, são processadas por meio de lançamentos nas contas mantidas pelos participantes no Banco Central. O sistema constitui-se no coração do Sistema Financeiro Nacional, pois é por seu intermédio que ocorrem as liquidações das operações realizadas nos mercados monetário, cambial e de capitais, entre as instituições financeiras titulares de contas no BCB, com destaque para as operações de política monetária e cambial do Banco Central, a arrecadação de tributos e as colocações primárias, resgates e pagamentos de juros dos títulos da dívida pública federal pelo Tesouro Nacional.

Além desses movimentos financeiros, são liquidados no STR os resultados apurados de forma diferida líquida em sistemas de compensação e de liquidação, como por exemplo os resultados da compensação de cheques e de boletos de pagamento. Nesses casos, o Banco Central restringe a liquidação dos documentos emitidos com valor inferior a R$ 250 mil à modalidade diferida líquida, ao passo que os cheques e os boletos de pagamento de valor igual ou superior a esse limite são liquidados entre as instituições, no STR e de forma bilateral, pelos valores brutos agregados (sem compensação).

Para os bancos comerciais, bancos múltiplos com carteira comercial, caixas econômicas e para as câmaras e prestadores de serviços de compensação e de liquidação sistemicamente importantes, a manutenção de conta no BC é obrigatória.

O quadro abaixo ilustra os tipos de conta mantidos no Banco Central do Brasil pelas instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional e a obrigatoriedade/faculdade de manutenção da conta.

Estrutura-de-contas

O acesso dos participantes ao sistema é feito por intermédio da Rede do Sistema Financeiro Nacional (RSFN) ou pela Internet, através do aplicativo STR-Web disponibilizado pelo Banco Central. Os participantes titulares de contas Reservas Bancárias, bem como as câmaras e prestadores de serviço de compensação e de liquidação titulares de Conta de Liquidação, devem utilizar a RSFN como modalidade principal de acesso.

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