Bolhas Econômicas | Uma Exuberância Irracional

Bolhas Econômicas | Uma Exuberância Irracional

Tempo de Leitura: 6 Minutos

Exuberância irracional: duas palavras pouco marcantes, mas, quando ficam juntas, têm força suficiente para fazer com que os mercados do mundo todo despenquem. Em 1996, quando Alan Greenspan, então presidente da Reserva Federal, disse que era isso que podia estar acontecendo com os mercados, causou uma grande queda nos preços, pois os investidores se perguntaram se tinham ficado presos dentro de uma bolha.

Greenspan percebera que os preços das ações de empresas de tecnologia estavam subindo bem mais rápido do que seria de se esperar. As pessoas estavam se deixando levar, permitindo que seu entusiasmo pelo auge da internet as levasse a adquirir ações por um valor maior do que o razoável. Como resultado, nos primeiros dias da bolha das ações “ponto.com”, os preços subiram muito. A advertência de Greenspan fez com que o índice Dow Jones na Wall Street caísse 145 pontos no dia seguinte, mas os investidores recuperaram a confiança até depois da virada do milênio.

O caso da “exuberância irracional” ilustra dois pontos importantes sobre mercados financeiros e bolhas: primeiro, é extremamente difícil identificar uma bolha, e mais difícil ainda descobrir se está próxima de estourar; segundo, nem sempre é fácil manter uma bolha sob controle.

Identificando Bolhas

As bolhas econômicas ocorrem quando o entusiasmo de especuladores e investidores sobre determinado ativo faz com que seu preço vá mais alto do que deveria. Claro que a determinação do preço “correto” é subjetiva, e aí está o problema. Mesmo quando os preços das ações de empresas relacionadas na internet atingiram valores estonteantes, em 2000, muitos analistas e especialistas afirmaram que seu preço era razoável. O mesmo aconteceu com preços de imóveis nos EUA e no Reino Unido em 2006, antes de começarem a cair durante a crise econômica que se seguiu.

As bolhas não são um fenômeno novo. Têm ocorrido desde os primeiros dias dos mercados: da Holanda do século XVII, onde investidores correram para comprar tulipas, às bolhas da South Sea e da Mississippi Company do século XVIII (associadas a lucros que seriam obtidos com as colônias europeias), até as diversas febres imobiliárias do século XX e XXI.

Embora fique óbvio, em retrospectiva, que se tratava de bolhas, foi difícil identificá-las antecipadamente. Os preços podem aumentar por motivos que os economistas chamam de “fundamentais”. Os preços de imóveis, por exemplo, podem aumentar porque mais pessoas querem morar em determinado país ou região – noutras palavras, há um aumento na demanda – ou porque diminui o número de imóveis sendo construídos – ou seja, há uma limitação da oferta.

Nadando Contra a Corrente

Muitos especialistas em economia, entre os quais Alan Greenspan. têm dito que os legisladores não devem tentar conter as bolhas – “nadar contra a corrente”, obviamente elevando as taxas de juros ou baixando novas regras – e sim concentrar-se em limpar a sujeira depois que explodem. Sua lógica é dupla. Primeiro, é difícil identificar se os preços em alta são o sintoma de uma bolha ou uma manifestação benigna de crescimento econômico. Segundo, tendo em vista que ferramentas econômicas como taxa de juros e regulações são obtusas, é provável que seu uso leve a danos colaterais noutras partes da economia.

Alguns chegaram a sugerir que as bolhas são parte integral de uma economia que funciona bem, estimulando investimentos em grande escala que não seriam feitos noutra situação. Por exemplo, a alta das empresas “ponto.com” do final da década de 1990 deu início a uma corrida para se instalar redes de fibra óptica no mundo todo. O resultado foi uma rede internacional de capacidade bem maior do que a que seria necessária na época. Muitas das empresas envolvidas faliram, mas o aumento da largura de banda foi parcialmente responsável pelo crescimento econômico após a era das “ponto.com”, pois reduziu o preço das comunicações internacionais. De modo análogo, alguns dizem que estourar uma bolha livra a economia das empresas menos prósperas pelo processo de destruição criativa.

O Mal Feito

No entanto, tais argumentos parecem questionáveis quando uma economia acabou de sofrer o estouro de uma bolha. A recessão que se segue pode ser muito daninha. Quando os bancos começaram a racionar o crédito, por exemplo, até as mais simples transações financeiras podem se tornar significativamente mais caras. Basta estudar a Grande Depressão, após a Queda de Wall Street de 1929, para compreender a gravidade das implicações econômicas de longo prazo do estouro de uma bolha.

Alguns afirmam que as bolhas econômicas chamam a atenção das pessoas com o chamariz de lucro fácil, desviando-as de investimentos que deveriam estar fazendo. Em termos econômicos, causam uma má alocação de recursos que poderiam ser mais bem utilizados em outro lugar. Os investidores podem, por exemplo, comprar casas acreditando que o preço vai aumentar, em vez de aplicar o dinheiro em ações ou em uma conta de poupança.

Atenuando o Ciclo

Os encarregados de uma economia dispõem de diversos recursos para impedir a formação de bolhas. A primeira ferramente é simplesmente assinalar – com um discurso ou alguma outra forma de anúncio público – que os legisladores estão preocupados com o desenvolvimento de uma bolha (talvez indicando as medidas que serão tomadas para impedi-la). No entanto, como mostrou a queda das “ponto.com”, isso não garante que a bolha vá retrair. A segunda opção é elevar as taxas de juros, que podem amortecer o crescimento da bolha, mas ao custo de desacelerar o crescimento de outras partes da economia. Uma terceira ideia é regular os bancos com maior rigor para que não emprestem tão liberalmente quando tudo está bem e, após o estouro de uma bolha, simplesmente fechem os caixas. Políticas como essas são conhecidas como anticíclicas, pois visam impedir que a economia oscile de uma alta para uma quebra – em oposição a políticas pró-cíclicas, que estimulam as bolhas e as dolorosas recessões.

Após a crise de 2008, os bancos centrais se comprometeram a se esforçar mais por “nadar contra a corrente” para impedir que se formem novas bolhas imobiliárias – tal como aconteceu tão desastrosamente naquela década. Mas os economistas têm se convencido, cada vez mais, de que as bolhas são uma parte inevitável do crescimento econômico. Enquanto os seres humanos forem irracionais e imprevisíveis, é provável que as bolhas sejam um elemento permanente da vida.

Elos de Retroalimentação

Quando uma bolha está se formando ou explodindo, afeta a economia mediante um círculo virtuoso ou vicioso, que os economistas chamam de elo de retroalimentação positivo ou negativo. Com o aumento dos preços, as pessoas se sentem mais ricas; isso faz com que gastem mais, o que leva a economia para a frente. Quando os preços caem, as pessoas gastam menos, o que, por sua vez, faz com que os preços caiam ainda mais e os bancos emprestem menos. Durante a crise financeira de 2008, formou-se um elo de retroalimentação negativo, no qual os bancos pararam de emprestar livremente ao público; isso levou as pessoas a reduzirem seus dispêndios, o que só serviu para reforçar a relutância dos bancos em emprestar. Esses elos são os mais perigosos fenômenos econômicos: depois que começam, fica muito difícil para qualquer um – de bancos centrais a políticos – detê-los.

Deixe uma resposta