Capitalismo | A Democracia na Economia de Mercado

Capitalismo | A Democracia na Economia de Mercado

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Para Francis Fukuyama (filósofo e economista político nipo-estadunidense), foi o momento que marcou o “Fim da História“. Para milhões da Europa Oriental, e outros, representou uma liberdade e uma prosperidade nunca vivida antes. Para David Hasselhoff, foi o concerto triunfal de uma carreira musical encorajadoramente breve. A queda do Muro de Berlim na noite de 9 de Novembro de 1989, significou muitas coisas para muitas pessoas.

Fukuyama dizia que, com o colapso do comunismo, a procura por um modelo moderno de sociedade havia chegado ao fim e que a democracia e economia de mercado seria a melhor combinação para organização da sociedade, a primeira e perfeita ideia organizadora mais importante.

Mais importante de tudo, porém, foi o que esse momento revelou sobre a maneira como as economias são estruturadas e geridas. Para a maior parte dos observadores, o colapso da União Soviética provou incontrovertidamente que a economia de mercado é a melhor maneira de administrar um país, torná-lo próspero e deixar seus cidadãos felizes e ricos. Foi a vitória do capitalismo.

Talvez o capitalismo tenha atraído mais críticas do que qualquer outro modelo econômico. Na verdade, originalmente seu nome era uma expressão pejorativa idealizada pelos socialistas e marxistas do século XIX para referirem aos aspectos mais reprováveis da vida econômica moderna: exploração, desigualdade e repressão, para citar apenas três. Em seus primeiros dias, o modelo recebeu críticas da Igreja Católica, pois a prioridade que dava ao lucro e ao dinheiro era considerada uma ameaça aos ensinamentos religiosos. As críticas mais persistentes eram: gera a desigualdade, promove o desemprego e a instabilidade e tende a altos e baixos. Outros advertem que não leva em conta seu impacto ambiental.

Um Sistema Híbrido

Capitalismo é o sistema no qual o capital (empresas, estruturas e equipamentos usados na produção de bens e serviços) não pertence ao Estado, mas a particulares. Isso significa que é o público que possui empresas – correndo riscos com elas ao adquirir ações ou emprestando-lhes dinheiro em troca de títulos. Às vezes, as pessoas fazem isso diretamente; em geral, porém, fazem-no por meio de fundos de pensão. Quase todo cidadão de uma economia importante possui, sem saber, ações de suas principais empresas graças a fundo de pensão, o que, teoricamente, significa que todos têm interesse em ver os negócios prosperarem.

A maioria dos livros de economia não se dá ao trabalho de definir o capitalismo. Talvez isso seja compreensível. Ao contrário de sistemas econômicos puros e relativamente unidimensionais como o comunismo, o capitalismo é híbrido. Complexo e multifacetado, toma emprestado aspectos de muitos outros sistemas, e é extremamente difícil rotulá-lo com uma definição precisa. Não apenas isso, sendo o sistema econômico sob o qual vive a maioria dos países do mundo, parece infundado tentar defini-lo.

Como são as pessoas e não os governos que dominam a economia, geralmente o capitalismo anda de mãos dadas com o livre mercado. Porém, uma economia capitalista pode assumir muitas facetas diferentes.

Na prática, as economias que hoje costumamos chamar de capitalistas – como as dos EUA, Grã-Bretanha e de tantos outros – podem ser descritas mais adequadamente como “economias mistas”, combinando o livre mercado com a intervenção governamental. Economias totalmente livres – em geral chamadas de laissez-faire, que em francês significa “deixem(-nas) fazer (como quiserem)” – nunca existiram. Com efeito, a maioria das nações mais importantes tem uma dose ligeiramente menor de liberdade de mercado do que tinha há alguns séculos, como mostra a história da ideia.

A Evolução do Capitalismo

Em sua forma primitiva, o capitalismo desenvolveu-se como o sistema feudal da Europa medieval – no qual os agricultores tinham de trabalhar para o lucro da aristocracia rural. No final do século XVI, ele deu lugar ao mercantilismo. Era um precursor identificável do capitalismo, embora mais tosco, movido pelo comércio entre diversas nações e pela descoberta europeia de recursos lucrativos nas Américas. Os operadores dessas rotas comerciais tornaram-se extremamente ricos e, pela primeira vez na história, pessoas comuns começaram a ganhar dinheiro por méritos próprios, em vez de dependerem do patrocínio de um monarca ou aristocrata rico.

Foi uma epifania crítica, e embora Adam Smith implicasse com alguns detalhes do mercantilismo, sua força motriz – o fato de indivíduos poderem lucrar mediante o comércio com outros – é um dos preceitos cruciais do capitalismo, conforme mostrou em A riqueza das nações. Os comerciantes eram bem mais mimados pelo Estado do que hoje, e podiam operar monopólios, sendo ainda ajudados pelas tarifas impostas pelo governo sobre bens importados. Todavia, as estruturas legais que se desenvolveram ao longo de 200 anos – propriedade privada, sociedades anônimas – e os preceitos econômicos do lucro e da concorrência formaram as bases do capitalismo moderno.

No século XIX, os comerciantes foram substituídos como principais geradores de riquezas pelos industriais e donos de fábricas, no que muitos consideram a era de ouro do livre mercado. Nos Estados Unidos e no Reino Unido havia menos restrições aos mercados e ao comércio, e menos intervenção governamental, do que há hoje nesses mesmos países. Entretanto, a tendência de algumas indústrias de gerarem monopólios, e o trauma econômico e social da Grande Depressão da década de 1930 – com a Segunda Guerra Mundial logo depois – levou os governos a intervirem mais em suas economias, nacionalizando certos setores específicos e criando um Estado de bem-estar social para seus cidadãos. Pouco antes da Queda da Bolsa em 1929, os gastos do governo norte-americano representavam menos de um décimo da produção econômica do país. Quarenta anos depois, era mais ou menos um terço. Hoje, representa cerca de 36%, uma proporção que aumenta com rapidez. Para compreender exatamente por que houve esse salto, não é preciso procurar mais do que o próxima postagem, que trata do keynesianismo. A história do capitalismo no século passado girou essencialmente em torno da questão de quanto os governos devem gastar e até que ponto devem interferir nas economias.

Capitalismo e Democracia

O sistema capitalista traz implicações importantes para a política e a liberdade. O capitalismo é intrinsecamente democrático. Permitindo o funcionamento da mão invisível, estimulando empreendedores a se esforçarem e se aperfeiçoarem, priorizando o interesse pessoal dos indivíduos e não as decisões do Estado sobre o que poderia ser melhor para as pessoas, e permitindo que os acionistas controlem as empresas, valoriza os direitos democráticos individuais e o voto da população de uma maneira que outros sistemas geridos de cima para baixo não conseguem fazer. Não por coincidência, as sociedades não capitalistas tendem quase que exclusivamente a ter governos ditatoriais, não eleitos. Não obstante, no caso da China moderna, muitos preveem que a adoção dos valores de livre mercado pelo país vai acabar provocando a passagem para a democracia. Para Francis Fukuyama, a discussão, hoje, é até quando os chineses vão aceitar viver sob uma ditadura — e não quando americanos, franceses, alemães, indianos ou brasileiros abraçarão o totalitarismo. Até onde a vista alcança, o modelo ocidental reina sozinho.

Assim como existe uma tensão constante nas sociedades democráticas entre a interferência do Estado e os direitos do indivíduo, há uma discussão importante e constante sobre o tratamento injusto dispensado a alguns cidadãos e a prosperidade desproporcional permitida a outros. No entanto, é difícil encontrar um economista que discorde da afirmação de que, sob sistemas capitalistas, as economias ficaram mais ricas e saudáveis, desenvolveram-se mais depressa, criaram tecnologias mais sofisticadas e tiveram existências políticas mais serenas do que sob outros sistemas. Quando caíram o Muro de Berlim e a União Soviética, ficou claro para todos que o capitalismo tinha deixado as economias ocidentais em uma posição bem mais saudável do que aquelas previamente administradas pelo comunismo. Por isso, muitos economistas concluíram que, apesar de suas várias falhas, o capitalismo ainda é o melhor meio encontrado para se administrar um país.

A história sugere que o capitalismo é uma condição necessária para a liberdade política.” – Milton Friedman

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