Comunismo | O Impossível Controle Centralizado da Economia

Comunismo | O Impossível Controle Centralizado da Economia

postado em: Idea, Theories of Value | 2

Tempo de Leitura: 6 Minutos

Há alguns anos, a BBC pediu a seus ouvintes radiofônicos que votassem em seu filósofo preferido. Quando os votos começaram a chegar, apareceram alguns candidatos óbvios – Platão, Sócrates, Aristóteles, Hume e Nietzsche, entre outros -, mas à medida que a contagem era feita, logo ficou evidente que havia um vencedor para o título de filósofo predileto dos britânicos: Karl Marx.

Não muito depois, no final de 2008, uma livraria alemã informou que as vendas da obra-prima de Marx, Das Kapital (O Capital), tinham aumentado mais do que o fizeram em décadas.

Como é que um imigrante alemão radical, cujas ideias e predições mostraram-se erradas vez após vez, e que parecia ter sido enterrado junto com a queda do Muro de Berlim, continuava a ser tão popular? Por que suas obras, em particular, inspiram tanta devoção num dos países mais dedicados à economia de livre mercado?

A Teoria Famosa

O ponto nevrálgico da famosa teoria de Marx é que as sociedades estão em meio a um processo de evolução, rumando de sistemas econômicos pouco justos e sofisticados para um destino final ideal. Tendo começado nos estados feudais e passado pelo mercantilismo até o moderno sistema capitalista, a sociedade humana evoluiria naturalmente para um sistema mais justo e utópico. Esse sistema, dizia, era o comunismo.

Em uma sociedade comunista, a propriedade e os meios de produção (fábricas, ferramentas, matérias-primas, etc.) não pertenceriam a indivíduos ou empresas, mas a todos. Inicialmente, o Estado possuiria e controlaria empresas e instituições, gerindo-as de cima para baixo, assegurando-se de que as empresas não oprimiriam seus trabalhadores. Com o tempo, porém, o Estado iria desaparecer. Esse, disse Marx, representaria o estágio final da sociedade humana, quando se dissolveriam as barreiras de classe que tinham estratificado as nações durante milhares de anos.

Luta de Classes

Muitas formas de comunismo foram propostas antes que Marx e seu colega Friedrich Engels abordassem o tema no Manifesto Comunista em 1848. Em 1516, por exemplo, o escritor e político inglês Thomas More esboçou uma sociedade baseada na propriedade comum dos bens em seu livro Utopia, e já havia diversas comunidades comunistas na Europa e nos Estados Unidos no começo do século XIX.

O argumento de Marx, no entanto, era que o comunismo seria adotado em massa à medida que os trabalhadores do mundo se revoltassem contra seus governos e os derrubassem para estabelecer uma sociedade mais justa. Para isso, fundamentou-se na ideia de que o sistema capitalista existente era claramente injusto, pois os ricos – com mais capital (bens) – ficavam cada vez mais ricos à custa do trabalhador comum. Marx afirmava que a história da humanidade era a história da luta de classes, na qual o conflito entre a aristocracia e a burguesia ascendente (a classe média capitalista, que dominava cada vez mais os meios de produção) deu lugar a um novo conflito entre a burguesia e o proletariado (as classes obreiras que trabalhavam para eles).

No centro das teorias de Marx, encontrava-se a teoria do valor-trabalho. Essa ideia afirma que uma mercadoria vale o tempo que leva para alguém produzi-la. Logo, por exemplo, um paletó que exige duas vezes mais tempo para ser cortado e costurado do que um par de calças deve custar duas vezes mais do que estas. Contudo, argumentou, aqueles que administram as empresas embolsam um lucro desproporcional. O motivo pelo qual os patrões conseguem fazê-lo, disse Marx, é que possuem os meios de produção e, assim, conseguem explorar seus trabalhadores. Há pontos de interrogação sobre a solidez da teoria do valor-trabalho. Ainda assim, o argumento amplo não perde a validade: existe uma lacuna muito grande entre a riqueza e a oportunidade daqueles que possuem terras e capital e as daqueles que não os possuem.

“A teoria do comunismo pode ser resumida em uma frase: abolir toda propriedade privada.” – Karl Marx

Quem ler hoje o Manifesto Comunista pode se surpreender com o fato de que o mundo que descreve existiu há mais de um século e meio. Parece ser um mundo muito moderno, um mundo de globalização, cortes de pessoal, grandes corporações internacionais e assim por diante. Marx pintou um quadro no qual a concorrência entre capitalistas ficaria tão feroz que, mais cedo ou mais tarde, a maioria iria à falência ou seria engolida pelos demais, deixando apenas um punhado de monopólios controlando quase todo o sistema de produção; esses, por sua vez, teriam poder quase ilimitado para explorar os trabalhadores. Também predisse que, como o capitalismo era intrinsecamente caótico, seria propenso a altos e baixos cada vez maiores ao longo do tempo, causando uma série de graves crises econômicas e um aumento no desemprego. Chegaria uma época em que isso – somado ao drama cotidiano de fazer tarefas repetitivas – acabaria ficando insuportável para o proletariado, e seria iniciada uma revolução.

Comunismo no Mundo Moderno

Num dado momento do século XX, cerca de metade da população mundial vivia sob governos que afirmavam que Marx era a luz política a guiá-los. Entretanto, no final do século, apenas algumas ditaduras persistentes eram, de fato, nações comunistas. Por que a teoria não passou na prova do tempo?

Em parte, porque Marx estava errado quanto à eventual evolução do capitalismo. Ele não se degenerou num sistema monopolista – pelo menos, ainda não – graças, em parte, à regulação dos governos e, em parte, à mão invisível. O mundo não se viu repleto de desempregados, e, apesar de ainda vermos altos e baixos, o controle governamental é tão culpado por eles quanto as forças desenfreadas do capitalismo.

Poucos (talvez nenhum) dos países que adotaram o comunismo após as revoluções socialistas poderiam se adequar estritamente aos critérios de Marx – eram, na maioria, nações agrícolas, de baixa renda e subdesenvolvidas, como a Rússia e a China.

Os experimentos marxistas do século XX também destacaram as falhas intrínsecas dessa teoria. A mais importante é que o controle centralizado da economia é extremamente difícil de se pôr em prática, se não impossível. Quando a Cortina de Ferro caiu na década de 1990 e os antigos estados soviéticos se abriram para os olhos do Ocidente, ficou claro que, apesar de todo o alarido da época da Guerra Fria, todos eram dolorosamente subdesenvolvidos.

Enquanto as forças da oferta e da demanda criaram economias dinâmicas que geraram riqueza rapidamente, os sistemas centralizados e rígidos da União Soviética e da China inibiram a inovação. Sem a concorrência entre empresas – a principal força motriz do livre mercado – a economia avançou com dificuldades, empurrada pelos burocratas. Os soviéticos só se destacaram de fato em uma área: a da inovação militar e aeronáutica. Não foi à toa que a União Soviética só encontrou concorrência nessa área – no caso, com o Ocidente durante a Guerra Fria.

2 Respostas

  1. Junior Eduardo Torres
    | Responder

    Ótima leitura do guia. Obs: Manifesto comunista foi em 1848

    • Markus Coutinho
      | Responder

      Obrigado, detalhe corrigido!

Deixe uma resposta