Consumismo Desenfreado | As Alternativas ao Varejo

Consumismo Desenfreado | As Alternativas ao Varejo

postado em: Society and Economy | 0

Tempo de Leitura: 13 Minutos

O consumismo desenfreado nos faz sentir superficiais e vazios, porque nos projetamos para fora em direção aos observadores de forma promíscua e desesperada demais. Esquecemos as virtudes da contenção, reticência e dignidade. Perdemos a capacidade de avaliarmos a nós mesmos auto-suficientes e independentes de coisas externas. Como tudo em excesso, o consumismo também é prejudicial — especialmente no que diz respeito ao meio ambiente. Isso porque, para que determinado produto seja fabricado, é necessária a extração de matéria-prima e utilização de grandes quantidades de água e energia elétrica.

Este artigo sugere algumas maneiras pelas quais nós, enquanto indivíduos, podemos superar o efeito de ‘quanto mais se tem, mais se quer ter’, para um consumo consciente. A estratégia da renúncia, as alternativas ao varejo, o simples ato de não comprar, a reciclagem, a reutilização, o aluguel e o auto-aprendizado são as alternativas não apenas para economizar dinheiro, mas um importante passo no desenvolvimento das relações comerciais.

A Estratégia da Renúncia

Os bens e serviços mais requintados e impressionantes nos foram legados pelo DNA, na forma de adaptações físicas e psicológicas que exibem naturalmente nossas virtudes e impressionam nossos pares. Possuímos tudo que poderíamos precisar para impressionar nossos companheiros e, neste sentido, a estratégia da renúncia pode até parecer estúpida e infantil. Tal atitude bem que pode constituir um elogio à consciência e afabilidade do renunciante, mas atesta negativamente quanto à sua inteligência, experiência e percepção. O consumismo depende que esqueçamos uma verdade e acreditemos numa impostura. Todas as principais ideologias humanas conspiram no sentido de nos fazer acreditar em duas grandes falácias: 1 Que produtos acima da média podem compensar características abaixo da media (quando se tenta construir relacionamentos sérios de longo prazo com seu cônjuge, amigos ou família). 2 Produtos oferecem modos mais legais e impressionantes para exibirmos características desejáveis do que qualquer comportamento natural.

Consumir é sinônimo de status social e, ao renunciar o consumo, o renunciante cria suas próprias novas hierarquias de status, baseadas em exibições custosas de comportamento e firmeza.

Alternativas ao Varejo

Suponhamos que exista um produto que você acha que quer comprar. Você viu a propaganda e cobiça o item – talvez um Iphone de 256GB de memória embutida ou um Galaxy S8 com tela de 5,8 polegadas e display infinito. Você já antevê a pequena aventura no shopping: a busca pelo ambiente de vendas correto em que toca uma música pop nostálgica apropriada para uma legião, a submissão empertigada da equipe de vendedores, a busca pelo produto virgem, o auto-domínio que você demonstra ter ao resistir a upgrades e acessórios frívolos, o cálido abraço de validação do universo quando a máquina de cartão de débito (ou crédito) diz “transação aceita” e a realização de proprietário ao levar o item para casa, ligá-lo e observá-lo cumprindo sua tarefa. O problema é que você já experimentou isso tudo centenas de vezes antes com outros produtos, e milhões de outras pessoas experimentarão isso com o mesmo item. A aventura de compra parece única em perspectiva, porém genérica retrospectivamente. Dentro de um mês, não valerá a pena comentá-la. É assim no mundo da produção, do marketing e das vendas em massa.

Felizmente existem alternativas a comprar produtos novos, de marca e produzidos em massa, ao preço pleno de varejo e com equipes anônimas de vendas, em lojas não memoráveis. Elas não são muito fáceis, mas carregam consigo um valor de sinalização muito superior no que diz respeito aos traços pessoais. Por exemplo, sempre que quiser adquirir um novo produto físico, considere as seguintes opções:

Simplesmente, não o compre

Pense durante alguns dias se você realmente precisa do produto – especialmente no que tange à sua exibição de características e funções. Considere que conversar mais tarde sobre sua decisão consciente de não comprar o produto pode transmitir mais informações memoráveis a respeito de seu caráter do que o fato de comprá-lo. Considere se ele realmente aumentará seu status social conforme sugerido na propaganda e se esse tipo de aumento realmente vale o custo financeiro.

Ademais, no que diz respeito a algumas indulgências, vale a pena considerar quanto você pagaria para não possuir o item. Por exemplo, o Sam’s Club eventualmente importa os confeitos M&Ms em embalagens de 2 quilos por aproximadamente 50 reais. Como eu gosto de M&Ms, elas parecem ser uma grande compra impulsiva quando acho que mereço uma guloseima. Entretanto, à razão de 142 calorias por cada 30 gramas, esse saco contém aproximadamente 9 mil calorias de chocolate ao leite que, conhecendo-me, sei que acabaria por comer. Uma aula aeróbica intensa queima apenas 500 calorias por hora e, assim, levaria dezoito horas de aulas aeróbicas, a 15 reais por hora aproximadamente, para neutralizar o ganho de gordura. Dessa forma, racionalmente, eu deveria estar disposto a pagar aproximadamente 270 reais no caixa da Sam’s Club – ou à minha mulher, ou a qualquer pessoa – para me impedir de comprar a embalagem de 50 reais de M&Ms.

Neste caso, esse é o valor da força de vontade. Um raciocínio similar pode ajudar a evitar que as pessoas comprem sedãs esportivos com elevados custos de manutenção e de seguro, casas com elevados impostos e custos de condomínio, pacotes de dados celulares com altas taxas mensais, impressoras com cartuchos de tinta dispendiosos, ou diplomas de universidades. No que tange a muitos produtos, os custos líquidos de longo prazo para possuí-los e consumi-los excedem em muito os benefícios de curto prazo que eles garantem.

Ache o produto que você já possui

Se você tiver mais de 30 anos de idade e o produto for um objeto físico que não acabou de ser inventado, você provavelmente já tem um em alguma parte de sua casa. Ache-o, limpe-o, faça-o funcionar e use-o em vez de comprar outro. Se tiver de consertá-lo ou fazer um upgrade, melhor ainda – essas são habilidades sobre as quais você poderá falar quando for utilizá-lo diante de terceiros. Se o seu produto velho carecer de certas características presentes nos produtos mais novos, ele pode ter outros charmes compensadores (familiaridade, design retrô, confiabilidade). Ademais, às vezes, as novas características podem ser adaptadas posteriormente. Se o seu antigo computador não tem a velocidade e processamento de um novo, simplesmente acrescente nele mais memória, um disco rígido SSD ou uma placa de vídeo mais potente. Se o seu carro não tiver os assentos de couro dos novos modelos, compre capas de couro sob medida por aproximadamente mil reais no Mercado Livre e outros varejistas.

Peça emprestado a um amigo, parente ou vizinho

A maioria das grandes compras é racionalizada da seguinte maneira: o elevado custo de capital inicial será amortizado durante os muitos anos de uso. O produto será utilizado centenas de vezes e, portanto, o custo por cada utilização tornar-se-á cada vez menor, e a economia, cada vez maior. Não obstante, os consumidores com boa memória e auto-ilusão reduzida perceberão que muito pouco de suas compras já justificaram o custo dessa maneira. Já que tantos produtos são utilizados apenas algumas vezes e então esquecidos, é melhor pedi-los emprestados a algum conhecido, usá-los algumas vezes e então devolvê-los, do que ter de armazená-los. Tomar emprestado também consolida o capital social, na medida em que promove a reciprocidade, a confiança e os vínculos sociais. Se você estiver usando freqüentemente um produto caro emprestado de um amigo, isso atesta para o fato de que o seu amigo confia que você o usará com cuidado e o devolverá prontamente – componente chave de uma economia compartilhada.

Alugue-o

Considerando o fato de que você não usará a maioria dos produtos tanto quanto pensa, freqüentemente faz mais sentido alugá-los do que comprá-los. De qualquer modo, a noção de propriedade é uma ilusão cognitiva, fundada sobre a negação do hábito, ciclos da moda de consumo, progresso técnico e nossa própria mortalidade. Comprar alguma coisa definitivamente significa, na melhor das hipóteses, estar em condições de usá-la até que ela se torne enfadonha, antiquada ou obsoleta, ou até que a pessoa morra. A “propriedade” particular é apenas uma maneira de alugar coisas do universo pela duração da vida humana – ou menos. Aquele que morre com a maior quantidade de brinquedos… deveria ter comprado menos e alugado mais. O verdadeiro custo da propriedade por uso do produto é simplesmente o preço que você paga por alguma coisa quando a compra, menos o preço que consegue quando for vendê-la, dá-la de presente, perdê-la ou jogá-la fora, dividido pelo número de vezes que você a usou. Com freqüência, esse custo é surpreendentemente elevado e os economistas ficam rotineiramente espantados pela propensão dos seres humanos a comprar demais e alugar de menos produtos que serão utilizados apenas ocasionalmente.

“O que precisamos é de um buraco na parede e não de uma furadeira”

Hoje em dia, você pode alugar praticamente tudo: casas, veículos, ferramentas, computadores, aparelhos eletrônicos, roupas formais e até bolsas de grife. Livros, músicas e filmes podem freqüentemente ser alugados em bibliotecas públicas ou vídeo-locadoras. Com efeito, uma boa regra prática antes de comprar qualquer coisa nova é, caso seja possível, alugá-la por uma semana e ver se gosta e se ela possui realmente o valor de sinalização esperado.

Compre usado

Deixe que outra pessoa absorva a gigantesca depreciação que aflige quase todas as novas aquisições durante os primeiros anos. Deixe que ela compre o carro novo e arremate-o por um terço do preço depois de cinco anos, quando a busca compulsiva por novidades levá-la a experimentar a próxima coisa nova e chamativa.

Para tirar vantagem dessa estratégia, é preciso superar o valor irracional que atribuímos à condição de o objeto estar imaculado, bem como o desgosto irracional que sentimos por coisas que já tiveram um dono anterior. Por exemplo, é possível comprar muitas roupas em brechós. Nas cidades ricas e subúrbios, os brechós estão repletos de roupas de marcas badaladas, bem cortadas e quase sem uso, inclusive boas camisas de algodão, linho ou seda, por aproximadamente vinte reais, que custaram mais de vinte vezes isso quando novas (a questão aqui é a qualidade e não a marca). Na maior parte das vezes, essas roupas estão ali porque o comprador original engordou mais rápido do que o esperado e, portanto, não pode mais usá-las.

Para se sentir à vontade comprando roupas usadas, você só precisa se lembrar de duas coisas. Em primeiro lugar, roupas “novas” não foram penduradas nas araras das lojas por anjos antissépticos que vieram voando diretamente de uma confecção qualquer regulamentada pela ISO. Provavelmente foram manuseadas por dezenas de pessoas em pequenas confecções de fundo de quintal ou produzidas em fábricas asiáticas clandestinas, transportadas durante semanas em contêineres de carga poeirentos e enferrujados, e desempacotados por funcionários da loja que podem não ter lavado as mãos depois de terem comido no McDonald’s durante o almoço. Assim, as roupas são novas, mas no sentido de que só existiram por alguns meses, viajaram somente alguns milhares de quilômetros, foram manuseadas por menos de quarenta pessoas e experimentadas por pelo menos cinco clientes.

Em segundo lugar, você deve se lembrar de que roupas “usadas” foram simplesmente compradas e usadas por seres humanos que, do ponto de vista genético, bioquímico e dermatológico, são exatamente iguais a você e que evitaram manchá-las e lavaram-nas regularmente. O brechó já as desinfetou e lavou além de qualquer exigência feita por parte da vigilância sanitária. Assim, se você tiver uma noção razoável de solidariedade com a espécie, usar roupas que anteriormente pertenceram a estranhos não lhe parecerá mais ofensivo do que usar roupas que pertenceram anteriormente a irmãos ou a bons amigos (Com ressalva, evidentemente, para roupas íntimas e meias).

Esses princípios – o “novo” que não é realmente novo e o “usado” que apenas significa usado por pessoas praticamente idênticas a você – aplicam-se ainda mais para produtos menos íntimos. Você realmente deveria se importar que outras mãos humanas tenham segurado o volante do carro usado por 80 mil quilômetros antes que você o faça? A aversão irracional e o medo do contágio simbólico por proprietários anteriores, socialmente inferiores ou etnicamente diferentes são os grandes inimigos da frugalidade dos consumidores racionais.

Auto-Aprendizagem

Fazer as próprias coisas é mais fácil, frugal e exibível quando os materiais e as ferramentas exigidas são baratas, as técnicas aprendidas facilmente – porém raramente dominadas –, e as coisas feitas são realmente úteis, bonitas e visíveis. Você pode criar mesas de jantar e estantes apresentáveis, com tábuas de madeira maciça, uma simples serra de mesa e um conhecimento básico de carpintaria. Cozinhar, costurar, fazer bijuterias ou cerâmica podem resultar em impressionantes itens de fabricação própria por custos iniciais geralmente baixos. Mesmo que um item não possa ser todo produzido, seus componentes freqüentemente estão disponíveis para serem montados em casa, como no caso dos computadores pessoais. Você pode comprar o gabinete, a placa-mãe, a fonte de alimentação, o disco rígido e assim por diante, montá-los e ter um produto verdadeiramente personalizado.

Assim, ao compreendermos as origens do consumo desenfreado e as alternativas para uma economia compartilhada, poderemos manter o mesmo estilo de vida, sem precisar adquirir mais, seremos capazes de melhorar nosso entendimento sobre a oferta e a demanda, sobre a nossa relação com os bens materiais e os impactos positivos que criamos nas relações sociais e na sustentabilidade do planeta.

Deixe uma resposta