Crises de Crédito | A Fórmula Black-Scholes

Crises de Crédito | A Fórmula Black-Scholes

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C=SN(d_1)-Le^{-rT}N(d_1-\sigma\surd{T})

Pode não parecer, mas esta é a equação mais perigosa desde E=mc^2. Assim como a equação de Albert Einstein acabou levando a Hiroshima e Nagasaki, esta tem o impacto financeiro de uma bomba nuclear. Contribuiu para altos e baixos do mercado de valores, para uma sucessão de crises financeiras e para depressões econômicas que provaram milhões de pessoas de parcelas significativas de seus meios de subsistência. É a fórmula Black-Scholes, e no coração dessa história acha-se a maior de todas as perguntas da economia: os seres humanos podem aprender com seus erros?

Em termos gerais, há duas escolas de pensamento sobre a forma como se comportam os mercados financeiros. Uma diz que os seres humanos tendem a oscilar do estado de medo ao de cobiça, e que os mercados podem ficar obsessivos e essencialmente irracionais ao extremo. Sua conclusão é que sempre iremos de bolha em bolha. Essa é a teoria dos ciclos de crédito. Quando tudo vai bem, o dinheiro é barato e abundante, mas às vezes esses tempos são interrompidos por uma crise de crédito, os bancos simplesmente param de emprestar, causando a quase paralisia da vida econômica normal.

A outra teoria diz que, com o tempo, os mercados se corrigem sozinhos, tornando-se cada vez mais eficientes e menos propensos a neuroses, o que significa que, um dia, quedas e crises vão se tornar coisas do passado. A teoria baseia-se na crença de que, no longo prazo, os seres humanos podem se aperfeiçoar. É essa a tese sustentada pela equação maravilhosa, idealizada por Myron Scholes e Fischer Black.

A equação Black-Scholes fez o que parecia ser impossível. À primeira vista, era apenas um meio de deduzir qual deveria ser o preço de uma opção dos mercados de derivativos. Entretanto, as implicações eram assombrosas. Era uma fórmula matemática que parecia eliminar o risco de se investir nos mercados. Aparentemente, seguindo a equação, os investidores poderiam evitar perder milhões simplesmente vendendo as ações no curto prazo (noutras palavras, apostando em seu declínio iminente), quando os preços estavam caindo. A fórmula foi adotada por quase todos os investidores importantes do mundo e proporcionou a seus criadores o Prêmio Nobel de Economia de 1997. Infelizmente, porém, quando as coisas ficaram difíceis, ela não funcionou. Numa situação em que os preços estavam caindo tão depressa que não havia compradores para uma ação, título ou investimento específico, a equação altamente lógica fracassou.

O problema da equação – e, na verdade, de quase todas as teorias econômicas – é que os mercados têm se comportado de maneira irracional desde a aurora dos tempos. Altos e baixos parecem ser um componente inevitável do capitalismo de mercado.

As Etapas do Pico à Crise

Os mercados financeiros são absolutamente essenciais para a saúde das economias, pois sem um acesso fácil ao crédito (ou, para chamá-lo pelo outro nome, à dívida), empresas e indivíduos não podem investir em seus futuros. Quando o dinheiro disponível para empréstimos ficam escasso, a crise de crédito resultante pode levar à recessão ou, pior ainda, à deflação e à depressão, pois as pessoas param de investir e de gerar riqueza. Logo, compreender como o mercado financeiro passa da cobiça para o medo é fundamental para entender o funcionamento de uma economia moderna.

Entre o auge e a crise, os mercados financeiros passam por cinco estágios. São os seguintes:

1. Mudança Acontece algo que muda a percepção dos investidores com relação aos mercados. No final da década de 1990 foi a internet. Até a crise das “ponto.com”, as pessoas acreditavam que ela teria um potencial quase ilimitado para se ganhar dinheiro. No começo da década de 2000, foi a combinação de taxas de juros baixas e inflação contida que convenceu as pessoas a assumirem mais dívidas e a investirem em imóveis.

2. Apogeu As expectativas dos investidores sobre essa mudança (muitas vezes chamada de “novo paradigma”) parecem compensar. Na década de 1990, por exemplo, quem comprou ações da internet viu seu investimento subir de preço aos saltos, enquanto os preços de imóveis subiram no começo da década de 2000 em função das taxas de juros baixas e da crença de que os bancos teriam descoberto um novo modelo de crédito hipotecário sem riscos.

3. Euforia A empolgação toma conta e os bancos emprestam mais dinheiro ainda na tentativa de aumentar os lucros. Geralmente, inventam novos instrumentos financeiros para propiciar isso. Na década de 1980, a inovação ficou por conta dos títulos podres – títulos de qualidade duvidosa; no início da década de 2000, foi a securitização de hipotecas e outras dívidas. Todos – desde um investidor conservador até o motorista de táxi – entram no mercado.

4. Realização de lucros Subitamente, os investidores sagazes percebem que os bons tempos não vão durar para sempre e começam a vender seus investimentos. Com a venda, os preços começam a baixar pela primeira vez.

5. Pânico Com os preços em queda, o medo se espalha. As pessoas correm em massa para vender seus investimentos e os preços mergulham bruscamente. Os bancos param de emprestar para todos, exceto para aqueles com excelente histórico.

“O mercado pode permanecer irracional por mais tempo do que você pode se manter solvente”John Maynard Keynes

Esses cinco estágios, idealizados pelo economista Hyman Minsky, vêm se repetindo através da história, embora em cada ocasião a mudança original e os detalhes exatos do apogeu sejam diferentes. De certo modo, a história se repete, mas com uma camuflagem tal que fica quase irreconhecível. O problema é que, quando um mercado entra em pânico, o resultado costuma ser uma crise de liquidez.

O Momento Minsky

No estágio do pânico, os preços podem cair tanto e tão depressa que o valor dos ativos em questão – como imóveis – cai rapidamente abaixo do valor da dívida assumida por seus compradores. Os bancos começam a exigir o pagamento dos empréstimos, mas como é difícil vender um ativo especulativo, os investidores vendem-nos a preços mais baixos ou buscam outra coisa para vender. Seja como for, o resultado é que os preços caem ainda mais. Às vezes, esse círculo vicioso é conhecido como “momento Minsky”.cisne-negro

Esse comportamento – pânico e loucura – parece irracional, e como a economia convencional não tem muito espaço para comportamentos irracionais, tem sido lenta para diagnosticar bolhas e crises iminentes antes que seja tarde demais. A equação Black-Scholes baseou-se na ideia de que sempre haverá demanda para uma ação ou investimento específico desde que o preço atinja um nível atraente, mas deixou de levar em consideração o comportamento irracional durante uma crise. Tal como acontece com tantas equações e modelos sofisticados, reforçou a ilusão de que temos algum modo de escapar do risco. Mas o mundo financeiro sempre foi um lugar arriscado.

Cisnes Negros

“Cisne Negro” é um evento inesperado que força as pessoas a revisarem suas visões preconcebidas do mundo. A expressão, popularizada pelo escritor e ex-operador Nassim Nicholas Taleb, deriva da suposição de que todos os cisnes eram brancos, uma ideia popular na Europa antes do século XVII e que seria desmentida pela descoberta dos cisnes negros na Austrália.

Nos mercados financeiros, evento cisne negro é um momento aleatório e inesperado que faz com que os mercados caiam ou subam. Taleb descreve a chegada da internet como um desses momentos, e a decisão russa de suspender o pagamento da dívida em 1998 como outro. Aquele levou à explosão das “ponto.com”; este, a uma importante crise de crédito e ao colapso do Long-Term Capital Management, um dos maiores fundos de cobertura do mundo. Outro exemplo? Os ataques de 11 de setembro de 2001.

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