Curva de Beveridge | A Relação entre a Demanda e o Emprego

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No modelo simplificado, raciocinamos como se um aumento na demanda de X por cento gerasse um aumento igual no emprego, pelo menos enquanto se está na presença de desempregados. Na realidade, a relação entre demanda e desemprego é mais complexa e é explicada por um modelo muito engenhoso, chamado de Curva de Beveridge, em homenagem a Lord Beveridge, que o desenvolveu. Darei aqui uma explicação sumária, de forma a ajudar o leitor a entender a natureza do desemprego e sua relação com a demanda agregada, de Keynes.

O ponto de partida é que, em uma economia dinâmica, o desemprego e o emprego não são compostos por pessoas que trabalham estavelmente e outros que nunca trabalham. Suponha-se que haja 10% de desemprego; isso não significa que 90% da força de trabalho estão em empregos estáveis e os 10% remanescentes estão permanentemente ociosos. Pelo contrário, existe um fluxo contínuo de pessoas que perdem seus empregos e se tornam, temporariamente, desempregados, e pessoas que acham emprego e se movem das filas de desempregados para as de empregados. Dessa forma, mais ou menos todos os desempregados, em algum momento ou outro, conseguirão emprego.

Nessa economia de fluxos, pode ser visto que o estoque de desempregados é o produto do fluxo daqueles que perderam seus empregos, multiplicado pelo tempo necessário, na média, por um novo desempregado, para conseguir trabalho. Como exemplo, se o fluxo dos que perderam seus empregos é um milhão por mês e, na média, eles levam três meses para encontrar novos empregos, temos três milhões de desempregados. O fluxo pode ser tomado como um parâmetro estável da economia que reflete a dinâmica do sistema, como, por exemplo, a rapidez com que as firmas nascem e morrem, e também a dimensão da economia. Por ambas as razões, o fluxo é muito mais amplo nos Estados Unidos que no Brasil, sem mencionar a Alemanha e Itália, onde a dispensa é praticamente um tabu.

Porém, o que determina o tempo necessário, na média, para que as pessoas que perderam seus empregos consigam um novo emprego? Depende da disponibilidade de empregos, e essa disponibilidade pode ser medida pelo número de empresas pessoais que desejam recrutar, mas não são capazes, porque não acham trabalhadores adequados. A medida é conhecida como vacâncias, ou o número de empregos “vagos”. Obviamente, quanto mais emprego há a preencher, mais curto, na média, será o tempo necessário para se encontrar um emprego. Portanto, para um dado fluxo de pessoas deixando seus empregos, desemprego e vacâncias se movem na direção oposta.

Essa razão inversa entre as duas variáveis é chamada de curva Beveridge. É ilustrada na figura abaixo. A variável U, medida ao longo do eixo vertical, é a taxa de desemprego, o número de desempregados (U) expresso como uma percentagem da força de trabalho, e a variável V, medida ao longo do eixo horizontal, é a taxa de vacâncias. No ponto a, as vacâncias são muitas, e o tempo de procura média é curto, e o desemprego é, portanto, baixo, como é o caso, atualmente, nos Estados Unidos. No ponto c, por outro lado, existem poucas vacâncias ou empregos a preencher, o tempo de procura pode se tornar muito longo e o desemprego é também muito elevado, como é o caso na Europa.

Curva de Beveridge
Curva de Beveridge

Para entender a relação entre a demanda agregada e o desemprego, deve-se ter em mente a restrição orçamentária que liga a variável desemprego (U), vacâncias (V), e a demanda total por trabalhadores (D), que podemos considerar como sendo proporcional à demanda agregada. Por definição, V é a diferença entre a demanda e o número de postos preenchidos, que é a mesma coisa que o emprego. Relembrando que o desemprego é, por sua vez, a diferença entre a força de trabalho e o emprego, podemos estabelecer a seguinte relação entre as variáveis com as quais estamos preocupados:

u = 100-d+v

Onde as letras minúsculas denotam as maiúsculas expressas como percentagem da força de trabalho. Para um dado valor da demanda d, a equação representa uma relação entra das duas variáveis u e V, que pode ser mostrada graficamente na figura, pela curva cc. É uma linha reta com inclinação um, e uma linha de intercepto, no eixo vertical, igual a 100-D.

Suponha-se, por exemplo, que d é 98, isto é, o número de trabalhadores requeridos pelas firmas é igual a 98% da força de trabalho; então, o intercepto seria 2. O equilíbrio no mercado de trabalho corresponde ao ponto de interseção b na figura. Aqui, as vacâncias são 3% e o desemprego 2+3, ou 5%.

Vejamos o que acontece quando a demanda agregada cresce: d aumenta, a curva cc se desloca paralelamente a ela mesma, como indicado por cc‘, e o ponto de equilíbrio se move para c. Como pode ser facilmente previsto, um aumento na demanda geral reduz o desemprego e aumenta o emprego. Da mesma forma, uma redução na demanda agregada desloca cc para cima e o desemprego aumenta. Mas, um aumento na demanda, digamos de 1%, reduz o desemprego em menos que metade de um ponto percentual, já que, enquanto uma parte da demanda adicional gera um aumento no emprego, outra parte se traduz meramente em um aumento nos empregos vagos.

A curva Beveridge oferece uma “ponte” para o modelo de Keynes. Suponha-se que comecemos de um ponto como b e a demanda agregada caia e o desemprego cresça; então, seguindo a ideia de Keynes, podemos esperar que os salários não vão cair e, portanto, os preços vão permanecer constantes, o que continua a valer ainda que a demanda cresça, pressionando em direção ao ponto b. Entretanto, se a demanda continua a crescer, existirá um ponto em que os empregos vagos serão tão numerosos, isto é, demanda insatisfeita tão alta e desemprego tão baixo que as empresas tentarão obter trabalhadores oferecendo salários mais altos. Ao mesmo tempo, os trabalhadores vão encontrar uma fartura de oportunidades de trabalho em outra parte e vão ameaçar sair, justamente quando o empregador tem maior necessidade deles, a não ser que seus salários sejam aumentados. O aumento no custo do trabalho mais a existência de demanda que a firma não é capaz de satisfazer gera um aumento de preços, e assim começa o processo inflacionário, que pode terminar, entretanto, se a demanda agregada, em termos reais, for reconduzida abaixo do nível crítico. Note-se que o nível crítico de desemprego será atingido bem antes de se atingir zero. Qual é o nível crítico, então? É uma questão complexa, que está muito em moda nos Estados Unidos, hoje, já que a experiência do pós-guerra, até os anos 1990, sugere que o ponto crítico de desemprego deve girar entre 5,5 e 6%. Para surpresa de todos, pouco antes da virada para o século XXI, o desemprego na América caiu abaixo de 5%, sem nenhuma evidência de um episódio inflacionário.

  1. Rubem Fernandes de Souza
    | Responder

    Assim já diziam os sabios.

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