Desigualdade Social

Desigualdade Social

postado em: Idea, Society and Economy | 1

Tempo de Leitura: 7 Minutos

Se você caminhar pela orla marítima do Rio de Janeiro, depois de Ipanema e do Leblon, vai encontrar algumas das mais belas residências do Brasil. Esses palácios luxuosos, que valem vários milhões de dólares, abrigam muitos componentes exuberantes – cinemas totalmente equipados, quadras de tênis, piscinas, jacuzzis e dormitórios de empregados. Entretanto, a poucos metros dali, há uma das maiores e mais violentas favelas do mundo. Como é possível haver tanta pobreza ao lado de tanta fartura?

A desigualdade não é nova. Na Inglaterra vitoriana, ela foi particularmente grave: industriais ricos ganhavam fortunas sem precedentes, enquanto a família trabalhadora média era forçada a suportar enormes privações trabalhando em fábricas ou minas e vivendo em casas não muito diferentes daquelas encontradas nas favelas do Brasil.

Apesar dos esforços continuados dos políticos para reduzir a lacuna entre ricos e pobres, essa brecha ainda é extremamente grande. No quarto de século após o início da década de 1980, os níveis de desigualdade, com efeito, ampliaram-se significativamente em quase todos os países desenvolvidos do mundo. Apesar de essa lacuna ter diminuído na França, na Grécia e na Espanha, a separação entre ricos e pobres aumentou muito no Reino Unido, e, no final da primeira década do novo milênio, tanto no Reino Unido quanto nos EUA, a desigualdade atingiu o mais alto nível desde a década de 1930.

Lacunas de Riqueza

“Uma sociedade que põe a igualdade à frente da liberdade não terá nenhuma das duas. Uma sociedade que põe a liberdade à frente da igualdade terá um grau elevado de ambas.”Milton Friedman

Tendo em vista o fato de o capitalismo ser um sistema que recompensa o esforço e o empreendedorismo dos indivíduos, não é surpresa o fato de alguns serem mais ricos do que outros – afinal, qual o incentivo do esforço se este não trouxesse algum tipo de retribuição? Entretanto, o que ficou alarmante é o tamanho da disparidade. Nos EUA, os 10% mais ricos têm renda 16 vezes maior que os 10% mais pobres, enquanto os ricos do México, cujas favelas são tão esquálidas quanto as do Rio, são 25 vezes mais ricos que os pobres.

Enquanto isso, em países nórdicos como Dinamarca, Suécia e Finlândia, a lacuna é bem menor, com os mais ricos recebendo cerca de cinco vezes a quantia recebida pelos mais pobres. Essas lacunas de riqueza são calculadas usando-se o chamado “coeficiente de Gini“, uma comparação entre a renda dos que ganham mais e os que estão no fundo da pilha.

Alguns economistas afirmam que como por natureza as pessoas são diferentes em termos de hábitos e capacidades, é inevitável haver certa desigualdade em uma economia importante. Com efeito, aqueles que defendem o livre mercado dizem que as tentativas de redistribuir a riqueza têm consequências inesperadas e perversas. Impostos mais elevados podem levar os membros mais produtivos da sociedade a sair do país, ou desestimulá-los de trabalhar mais, o que, por sua vez, reduz a quantidade de riqueza gerada pela sociedade.

A disparidade é ainda maior quando comparamos os níveis de riqueza de diferentes países. Segundo a maioria dos parâmetros, os 20% mais pobres da população mundial – principalmente os moradores da África subsaariana – ainda vivem em condições econômicas equivalentes às da Idade Média, enquanto os mais pobres do Reino Unido e dos EUA são incomparavelmente mais ricos e saudáveis.

O Dividendo da Redistribuição

Há algumas explicações claras para essas disparidades. Os países nórdicos – e muitos do norte europeu – tendem a tributar mais pesadamente os cidadãos a fim de redistribuir o dinheiro para os pobres, por meio de sistemas de bem-estar social e redução de impostos. Este é um dos principais objetivos dos sistemas tributários das democracias modernas: reduzir a injustiça e ajudar a sustentar os cidadãos mais necessitados.

Com a construção dos sistemas de bem-estar social de países ricos do mundo do pós-guerra, os níveis de desigualdade foram bastante reduzidos. Oferecendo a todas as famílias acesso similar à educação e à saúde, muitos países – particularmente os nórdicos – tiveram êxito em equalizar as oportunidades disponíveis para as famílias. É o que muitos chamam de “Modelo Sueco” de administração de um país.

Entretanto, o simples ato de aumentar os impostos pagos pelos ricos para dar mais aos pobres não é suficiente. No Reino Unido, o governo trabalhista eleito em 1997 fez exatamente isso, e com resultado as famílias com um progenitor viram sua renda aumentar cerca de 11% durante sua década no poder. Contudo, ao mesmo tempo, a desigualdade atingiu o nível mais elevado das últimas décadas. Pior: um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) descobriu que a renda de um filho estava intimamente ligada à de seu pai, implicando que os jovens tinham poucas oportunidades de se livrar da pobreza.

Movendo a Diferença

O mundo está em meio a uma mudança importante em sua estrutura econômica, com as companhias começando a capitalizar novas tecnologias, como a internet, a computação avançada e as telecomunicações. Quando essas mudanças acontecem, geralmente a desigualdade aumenta, pois quem está preparado para a mudança fica rico e quem não está – vê-se deixado para trás. Foi o que aconteceu na Revolução Industrial e está acontecendo agora.

Outra explicação é que um número muito pequeno de pessoas conseguiu ficar super-rico. No Reino Unido, por exemplo, enquanto os 3 milhões de pessoas que compõem os 10% superiores dos trabalhadores ganham em média L 105.000 brutos por anos, os 0,1% do topo da pirâmide, ou 30.000 pessoas, têm uma renda média anual de L 1,1 milhão. Esses super-ricos conseguem evitar os impostos levando seu dinheiro a paraísos fiscais no exterior, o que significa uma menor redistribuição de rendas. Por outro lado, essas famílias ricas podem contribuir para a economia por meio dos impostos indiretos que pagam ao fazerem gastos extravagantes em bens de luxo, e empregando trabalhadores locais – desde faxineiros e empregados até cabeleireiros e advogados. Alguns dão a isso o nome de “efeito de gotejamento”.

O Efeito de Gotejamento
O Efeito de Gotejamento

As Consequências da Desigualdade

Não há provas claras de que, como um todo, um elevado nível de desigualdade impeça um país de ficar mais rico com o tempo. Na verdade, o proeminente economista Robert Barro descobriu que, embora pareça reduzir o crescimento no mundo em desenvolvimento, de fato a desigualdade fomenta o crescimento no mundo desenvolvido.

Entretanto, uma lacuna entre ricos e pobres pode ser nociva para o país de outras maneiras. A principal preocupação é a inquietude social. Estudos mostram que, em países e áreas nas quais a desigualdade é pequena, as pessoas tendem a confiar mais umas nas outras, o que faz sentido, uma vez que geralmente terão menos motivos para invejar as demais. Crimes violentos ou fatais também são bem menos comuns. Existe, por exemplo, uma forte correlação entre estados norte-americanos com grande distanciamento econômico e um grande número de homicídios.

A baixa renda também está intimamente associada à má saúde. Em Glasgow, na Escócia, onde a lacuna entre ricos e pobres é particularmente acentuada, a expectativa média de vida do homem é pior que a de muitos países em desenvolvimento, inclusive Argélia, Egito, Turquia e Vietnã.

As consequências da desigualdade não são achadas apenas na economia. As pessoas formam seu senso de autoestima (que influi na produtividade pessoal) principalmente pela forma como se veem em comparação com as outras. Quando as pessoas têm consciência de sua diferença de renda em relação às demais, tendem a ficar menos satisfeitas e a se esforçarem ainda menos.

Um estudo mostrou que atores de Hollywood que ganharam um prêmio da Academia viveram, em média, quatro anos mais do que seus colegas sem o prêmio, e aqueles que ganharam dois Oscar viveram seis anos mais. Ser recompensado por seu esforço faz diferença. Quer atinja seu orgulho, quer seu bolso, a desigualdade importa.

Uma resposta

  1. […] 0 representa a igualdade perfeita (onde todos tem a mesma renda), enquanto um índice de 100 indica desigualdade perfeita (quando uma só pessoa detém toda a […]

Deixe uma resposta