Destruição Criativa | O Processo de Mutação Industrial

Destruição Criativa | O Processo de Mutação Industrial

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Muitos sabem que a teoria da evolução de Charles Darwin teve uma importância científica revolucionária, pondo-a ao lado de Isaac Newton e sua descoberta das leias da gravidade e do movimento, e de Copérnico e a percepção de que a Terra gira ao redor do Sol. No entanto, poucos sabem que talvez Darwin nunca tivesse chegado à sua teoria se não fosse pela economia.

Em 1838, Darwin foi inspirado pelos trabalhos de Thomas Malthus, imaginando um mundo no qual o mais apto sobrevive e pode evoluir, tornando-se uma espécie mais nova, sofisticada e melhor. “Finalmente”, disse, “encontrei uma teoria sobre a qual posso trabalhar”. E quando você as observa bem, percebe que as forças que dão forma ao mundo natural e à economia de livre mercado são espantosamente semelhantes.

Lei da Selva Econômica

Como a natureza, os mercados livres podem ser cruéis. Às vezes, causam o fracasso de indivíduos talentosos e dignos. Não perdoam: se sua ideia não der certo, pode levar à bancarrota; se fizer um mau investimento, pode chegar a perder tudo. Contudo, segundo a lei da destruição criativa, esses fracassos podem, em última análise, produzir companhias e economias mais fortes e sociedades mais ricas, porque elas precisam eliminar o que é velho, ineficiente e pouco competitivo para abrir lugar para o novo, o vibrante e o forte.

É uma extensão das regras de oferta e demanda expostas por Adam Smith, mas a lei da destruição criativa, proposta por um grupo de economistas austríacos no século XX, leva-a um pouco além. Afirma que uma recessão ou uma contração econômica, em que o desemprego aumenta e o lucro das empresas diminui, podem, ao contrário do que poderíamos intuir, ser positiva no longo prazo para uma economia.

Essa afirmação foi feita entusiasticamente por Joseph Schumpeter, austríaco que emigrou para os Estados Unidos para escapar da perseguição nazista. Sua afirmação de que as recessões não devem ser evitadas foi tão controvertida na época quanto o é hoje. A doutrina sustentada pela maioria dos economistas da época (e por muitos políticos de hoje) é a de que os legisladores deviam fazer o que fosse possível para evitar as recessões e as depressões em particular. John Maynard Keynes, em especial, disse que elas causam tantos danos colaterais, em termos de desemprego e de queda da confiança, que devem ser combatidas por quaisquer meios à disposição do governo, como cortes nas taxas de juros e uso de fundos públicos para fomentar a economia.

De modo geral, a maioria dos economistas confia em complexos modelos computadorizados que presumem que a concorrência é perfeita e que a demanda se mantém mais ou menos estática ao longo do tempo. Schumpeter afirmou que tais modelos têm pouca semelhança com as condições voláteis nas quais as sociedades são forjadas.

O argumento de Schumpeter, longe de ter sido invalidado, preservou sua força. Na verdade, segundo os proeminentes economistas Brad DeLong e Larry Summers, assim como Keynes foi o mais importante economista do século XX, Schumpeter talvez se revele como o mais importante do século XXI.

Renascimento pela Recessão

Em vez de seguir um ritmo constante, as economias estão sujeitas aos chamados ciclos econômicos de altos e baixos. Durante uma alta, quando os consumidores gastam mais do que o normal e também tomam mais empréstimos, as empresas têm relativa facilidade para ganhar dinheiro.

“O processo de mutação industrial… revoluciona incessantemente a estrutura econômica a partir de dentro, destruindo incessantemente a velha, criando incessantemente uma nova.. Este processo de Destruição Criativa é o fato essencial do capitalismo.”Joseph Schumpeter

Schumpeter disse que isso leva a empresas ineficientes que, em épocas menos favoráveis, sequer teriam sido criadas.

Por outro lado, quando a economia se contrai e as pessoas gastam menos, as companhias ineficientes vão à falência. Embora isso cause dor no curto prazo, também força os investidores a investirem seu dinheiro em áreas mais atraentes da economia. Isso, por sua vez, estimula a taxa de crescimento potencial da economia para os anos seguintes. Schumpeter e seu colega austríaco Friedrich Hayek argumentaram que os governos não devem cortar maciçamente as taxas de juros para prevenir recessões. Em vez disso, argumentam que quem fez investimentos improdutivos no período de alta deve sofrer as consequências, pois do contrário os mesmos erros voltarão a ser cometidos no futuro.

Essa lógica se aplica tanto a indústrias inteiras quanto a empresas específicas. Em anos recentes, por exemplo, a situação difícil causada pela concorrência estrangeira fez com que a indústria manufatureira dos Estados Unidos e da Europa se contraísse e se modernizasse, com a eliminação das empresas menos eficientes.

Sobrevivência do mais Apto

A teoria foi posta em prática durante a Grande Depressão da década de 1930, quando os legisladores norte-americanos permitiram que milhares de bancos quebrassem na esperança de uma recuperação catártica. O secretário do Tesouro dos EUA na época, Andrew Mellon, sugeriu que os investidores deveriam “liquidar o trabalho, liquidar as ações, liquidar o setor agrícola e o imobiliário… Isso vai purgar a podridão do sistema”. Nos anos seguintes, a economia perdeu um terço de seu valor, levando décadas até se recuperar plenamente. Difícil ver nisso um tipo criativo de destruição, e a ideia acabou sendo deixada de lado, o que é fácil de entender. Estudos recentes mostrando que as empresas tendem a se reestruturar e a se enxugar durante épocas de alta e não nas de baixa reforçaram o ceticismo.

Schumpeter e Hayek, no entanto, argumentaram que existe uma diferença importante entre uma recessão superficial e uma depressão plena, daquelas que duram anos e causam danos irreparáveis. Além disso, para que a regra da destruição construtiva possa se aplicar, as economias precisam ser flexíveis o suficiente para enfrentar os altos e baixos causados pelas recessões. Em muitas economias europeias onde os mercados de trabalho são muito regulados e as empresas têm dificuldade para contratar e despedir, pode ser bem mais complicado tornar a conseguir trabalho para aqueles que perdem o emprego em uma recessão. Nesses casos, as recessões podem ter um custo permanente que supera os benefícios no longo prazo prometidos pela destruição criativa.

“Na sociedade capitalista, progresso econômico significa agitação.” – Joseph Schumpeter

A mensagem que fica é que das cinzas de uma crise econômica pode nascer uma economia mais forte e mais saudável. Das 100 maiores companhias do mundo em 1912, apenas 19 continuavam na lista em 1995, e quase metade desapareceu, faliu ou fui comprada. Todavia, é justamente por causa da destruição criativa que a economia cresceu de maneira tão próspera nesse período. As pesquisas mostram que a maioria das recessões da história norte-americana acabou aumentando a produtividade em vez de atenuá-la. Logo, assim como ao longo do tempo a evolução deixa as espécies mais bem aparelhadas para se adaptarem a seu ambiente, a destruição criativa tem criado economias que funcionam melhor.

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