Dinheiro | O Nervo do Amor e da Guerra

Dinheiro | O Nervo do Amor e da Guerra

Tempo de Leitura: 7 Minutos

A economia não se limita ao dinheiro, mas o dinheiro transforma todos em economistas. Peça a uma pessoa para pagar um valor por alguma coisa – em vez de oferecê-la de graça, ou em troca de algum favor – e você terá acionado um interruptor invisível em seu interior.

O economista comportamental Dan Ariely usou um experimento para provar isso. Ofereceu a seus alunos um doce do Starbucks ao preço de um centavo cada. Em média, cada um pegou quatro doces. Depois, mudou o preço para zero – grátis. A economia tradicional diria que, com um preço mais baixo, a demanda deveria aumentar, mas não foi o que aconteceu. Quando o dinheiro foi retirado da equação, aconteceu uma coisa estranha. Quase nenhum dos estudantes pegou mais do que um doce.

O Dinheiro Faz o Mundo Girar

O dinheiro é um dos elementos vitais de uma economia. Sem ele, seríamos forçados a praticar o escambo, ou seja, a trocar bens ou a oferecer um favor ou um serviço para pagar por alguma coisa. Assim como a comunicação entre duas pessoas fica bem mais fácil quando ambas falam a mesma língua, em vez de confiarem em gestos e ruídos, o dinheiro proporciona um meio de troca simples, sem o qual qualquer transação ficaria insuportavelmente complicada.

“O dinheiro é o nervo do amor e da guerra” – Thomas Fuller

Em países onde as pessoas perdem a fé no dinheiro – talvez por culpa da hiperinflação -, geralmente recorrem a uma economia de escambo. No final da década de 1980, quando a União Soviética entrou em colapso, muitos começaram a usar cigarros como moeda. Porém, as economias à base do escambo são muito ineficazes – imagine se tivesse de levar uma oferta atraente e diferente de serviços ou de bens todas as vezes que fosse fazer compras. Seria melhor ficar em casa.

Além dessa função primária como meio de troca, o dinheiro tem outros dois propósitos. Primeiro, é uma unidade de contagem, o que significa que é um parâmetro em relação ao qual as coisas podem ser precificadas, ajudando-nos a julgar o valor de alguma coisa. Segundo, é um depósito de valor, o que significa que não vai perder seu valor com o tempo – embora seja discutível se o moderno papel-moeda cumpre essa função. Todos estão familiarizados com o que seja dinheiro – notas de dólar, moedas de libra, centavos de euro e outros tipos de divisa – mas, tecnicamente, qualquer tipo de unidade negociável pode ser tratada como dinheiro: por exemplo, conchas, joias, cigarros e drogas (estes dois últimos costumam servir como dinheiro em prisões). E, mais do que antes, hoje o dinheiro constitui um fluxo invisível de crédito – dinheiro emprestado – entre emprestadores e tomadores.

Tipos de Dinheiro

É possível distinguir duas categorias principais de dinheiro:

Dinheiro-mercadoria: Tem um valor intrínseco, embora não seja de fato uma forma de dinheiro. Provavelmente, o ouro seria o exemplo mais óbvio, pois pode ser usado para fabricar joias e é um metal muito importante na indústria. Outros tipos de dinheiro-mercadoria incluem prata, cobre, alimentos (como arroz e pimenta em grãos), bebidas, cigarros e drogas.

Dinheiro fiduciário: É um dinheiro sem valor intrínseco. Derivado do latim “confiança” (fidúcia), pois seu valor depende de se confiar no governo que decretou que moedas e notas de valor intrínseco desprezível valem legalmente determinadas importâncias. Esse é o sistema atuante nas economias avançadas da atualidade. As notas de dólar são emitidas pela Reserva Federal e pelo Tesouro norte-americano, e as notas de £5, £10 e £20 (e assim por diante) são emitidas pelo Banco da Inglaterra. Originalmente, o papel-moeda podia ser convertido em dinheiro-mercadoria , e assim, tecnicamente, o cidadão podia exigir certa quantidade de ouro em troca por suas notas de dólar. No entanto, desde 15 de agosto de 1971, por ordem do presidente Nixon, a conversibilidade cessou e o dólar tornou-se dinheiro fiduciário puro. A estabilidade das moedas fiduciárias depende da fé que a população deposita no sistema legal do país e na credibilidade econômica do governo.

Medindo o Dinheiro

Medir a quantidade de dinheiro que circula em uma economia é uma das principais maneiras de se determinar a saúde dessa economia. Quando as pessoas têm mais dinheiro, sentem-se mais ricas e tendem a gastar mais, e as empresas respondem a esse aumento nas vendas encomendando mais matérias-primas e aumentando a produção. Isso por sua vez, eleva o preço das ações e o crescimento econômico. Este sentimento é tão importante que, apenas alguns meses após o desastre de Nova Orleans (destruída pelo furacão Katrina em 2005) as famílias atingidas receberam gordas indenizações do governo norte-americano, não só para reconstruírem suas casas como também para melhora-las, de modo a sentirem-se ricas e confiantes, o que acelerou a reconstrução da cidade.

Os bancos centrais medem o dinheiro de diversas formas. A mais popular é aquela que a Reserva Federal chama de M1, que mede a quantidade de papel-moeda em circulação fora dos bancos e a quantidade de fundos de que as pessoas dispõem em suas contas bancárias. Em outras palavras, M1 representa o dinheiro pronto e efetivamente disponível para as pessoas. Há outras medidas do dinheiro, mais amplas: M2, que inclui ativos menos líquidos (que não são acessíveis de imediato), como contas de poupança que exigem aviso ao banco antes de um saque; e M3, que cobre instrumentos financeiros considerados por muitos substitutos próximos do dinheiro, como depósitos a longo prazo e fundos do mercado monetário. No Brasil, há também o M4 que engloba o M3 mais os títulos públicos de alta liquidez.

Na virada do milênio, havia cerca de US$ 580 bilhões flutuando por aí, além de outros US$ 599 bilhões em contas bancárias pessoais de acesso instantâneo. Se você dividir a quantidade de dinheiro em circulação pelo número de adultos nos EUA – 212 milhões -, isso implica que cada adulto possui cerca de US$ 2.736 em moeda, valor claramente maior do que aquele que a maioria das pessoas guarda nas carteiras. O motivo para o valor per capita ser tão alto é, em parte, que boa parte do dinheiro se encontra no exterior, pois o dólar é usado como moeda em muitos países além dos EUA, e em parte porque algumas pessoas – como os criminosos por exemplo, inclusive aqueles que trabalham no mercado negro – preferem manter o dinheiro em moeda sonante em vez de guardá-lo em uma conta bancária.

O dinheiro é mais do que a simples moeda. É até mesmo mais do que a quantidade de moeda em circulação e nas contas bancárias pessoais. Também é um estado de espírito. As notas de papel e as moedas de latão e de níquel que carregamos nos bolsos valem apenas uma fração de seu valor nominal – e a transferência eletrônica de dinheiro vivo de uma conta bancária para outra tem menos valor intrínseco ainda. E é por isso que o dinheiro precisa ser respaldado pela confiança – a confiança no dinheiro dado pelo pagador e em que o governo vai garantir o valor do dinheiro em algum momento futuro.

“O dinheiro ainda não fez ninguém feliz, nem fará. Quanto mais um homem tem, mais ele deseja. Em vez de preencher um vazio, ele o cria” – Benjamin Franklin

Deixe uma resposta