Freakonomics | A Economia da Vida Diária

Freakonomics | A Economia da Vida Diária

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O que acontece quando a economia sai da sala de reuniões e vai para o dormitório ou quando é usada para examinar criminosos e não empresas? O que acontece quando suas ferramentas são empregadas para analisar tudo, desde o mercado paralelo até a vida familiar? As ferramentas da teoria econômica são tão poderosas e universais – desde oferta e demanda até teoria dos jogos – que podem ser usadas para lançar luzes sobre questões aparentemente desconexas.

Pense na parábola do vendedor de bagels, um dos muitos exemplos dados por Steven Levitt e Stephen Dubner em seu livro de 2005, Freakonomics (baseado na pesquisa de Levitt, professor de economia). É mais ou menos assim: um empreendedor que entrega bagels nas empresas resolve que, em vez de ficar esperando cada cliente lhe pagar, ele simplesmente deixa na companhia uma caixa e um bilhete pedindo que paguem o que lhe devem. Para sua tranquilidade, esse sistema baseado em confiança se sai muito bem. E o mais interessante é que seus relatos revelam algumas tendências fascinantes: as pessoas são mais honestas quando trabalham em escritórios menores, quando o clima vai bem e quando há um feriado por perto.

O livro tira algumas conclusões pouco convencionais sobre algumas das questões mais controvertidas da sociedade moderna, como aborto e raça. Entre outras coisas, revela vínculos surpreendentes entre a Ku Klux Klan e corretores de imóveis, além de revelar como os professores das escolas de Chicago e os lutadores de sumô conseguem enganar os outros.

A questão, no entanto, é que mesmo nos ambientes mais exóticos e sem relação com o mercado encontramos aplicação para as regras fundamentais da economia – quer isso signifique oferta e demanda, a mão invisível, incentivos humanos ou quaisquer outras do panteão de regras econômicas. Afinal, a economia é o estudo das decisões humanas, que não necessitam de um cenário monetário para funcionar.

Entretanto, o livro de Levitt e Dubner, que teve muito sucesso e gerou diversos imitadores nos anos seguintes, não representou a primeira vez que um economista formado aplicou as regras de sua profissão à vida cotidiana habitual. Gary Becker, economista da Universidade de Chicago, foi o verdadeiro pioneiro nisso. Becker, que recebeu o Nobel em 1992, mostrou que todos – desde criminosos e racistas até famílias e viciados em drogas – são influenciados, de algum modo, por forças econômicas como incentivos e tomada racional de decisões.

Saindo-se Bem

No cerne das teorias e argumentos de Becker, encontra-se a ideia de que tudo tem, quase sempre, um custo associado – mesmo que seja um custo social ou emocional, e não um valor explicitamente monetário. Por exemplo, uma de suas ideias é que aqueles que discriminam minorias costumam aumentar mentalmente o custo de uma transação caso envolva uma interação com elas.

Como a ciência da economia é basicamente um conjunto de ferramentas e não uma matéria em si, nenhum tema, por mais extravagante que pareça, deve ficar fora de seu alcance.” – Steven Levitt

O momento eureka! de Gary Becker deu-se quando ele precisou decidir entre estacionar em um local proibido ou ir até um estacionamento a alguns quarteirões de distância, ao custo de tempo e esforço adicionais. Ele preferiu estacionar no local proibido, considerando que o risco de ser flagrado e punido não era maior do que o esforço adicional de ter de dirigir até o estacionamento e ir a pé até onde queria. Decisões similares, concluiu, eram tomadas por criminosos para decidir se iriam infringir a lei.

A conclusão tem implicações importantes para a maneira como os políticos administram o sistema judiciário, pois corrobora a ideia de que as multas e as penalidades deveriam ser mais severas. Quanto mais dura a punição, maior o custo de ser flagrado e maior o seu poder de dissuasão. Foi essa percepção que ajudou Becker a receber seu Prêmio Nobel.

A teoria foi comprovada alguns anos depois por Levitt, que comparou o índice de delinquência juvenil em diversos estados norte-americanos com índices de criminalidade de adultos. Descobriu que assim que os adolescentes atingiam a idade em que enfrentariam as penas aplicadas a criminosos adultos, bem mais severas, a atividade delinquente diminuía.

A quantidade de crimes é determinada não apenas pela racionalidade e preferências dos possíveis criminosos, como também pelo ambiente econômico e social criado por políticas públicas, inclusive os gastos com policiamento, punição para os crimes e oportunidades de emprego, de estudos e programas de treinamento.” – Gary Backer

De fato, Tim Harford, autor de O Economista Clandestino, viu isso pessoalmente quando estava indo com Becker a um restaurante. O ganhador do Prêmio Nobel parou em um local onde podia permanecer por 30 minutos, tempo que excedeu em muito. Como os parquímetros não eram conferidos com frequência, calculou o risco de ser flagrado e considerou-o tolerável, tendo em vista a conveniência da localização. Disse que faz isso sempre, e embora tenha sido multado algumas vezes, a frequência das multas não o impede de estacionar lá. Estava simplesmente se comportando de forma racional.

Aplicações Sociais

Naturalmente, a economia não se aplica apenas a situações criminosas. Harford, por exemplo, mostrou que os participantes de sessões de speed dating, ou “encontros-relâmpago”, tendem a aumentar ou a diminuir suas expectativas quanto à qualidade do parceiro procurado não só com base em suas exigências absolutas, como na qualidade do conjunto dos candidatos. O número de pessoas que escolhem um parceiro com sucesso tende a permanecer constante, independentemente se o conjunto é muito atraente ou não. Basicamente, essa é uma lição de ancoragem, um dos preceitos da economia comportamental.

Levitt usa as teorias econômicas para provar que as crianças se definem menos pela maneira como foram criadas do que pelo histórico econômico e às vezes étnico de seus pais. Ficou famoso por dizer que a causa a redução dos índices de criminalidade nos EUA na década de 1990 foi a legalização do aborto na década de 1970, pois com isso as famílias em áreas mais pobres não precisavam ter filhos descontroladamente.

“Na verdade, a macroeconomia não se ocupa com o comportamento humano”, diz Levitt:

A economia faz parte de um conjunto de ferramentas amplas para se entender o mundo. Mas diz para colocarmos em prática políticas absurdas, pois não se preocupa com coisas como equidade, moralidade ou fatores psicológicos.

Pela economia, a punição adequada para quem estaciona em uma vaga para deficientes seria a execução com sons de baixa frequência ou a tortura pelo mesmo processo – e creio que seria perfeitamente compreensível.

Embora a aplicabilidade das teorias econômicas à vida cotidiana tenham limites, os legisladores aprendem uma lição clara com elas: a economia não é uma estrutura perfeita para observarmos o mundo. No entanto, é o melhor método disponível para se determinar como influenciar as pessoas e como prever seu comportamento. E isso se aplica tanto a nossos pecadilhos sociais quanto a nossas atribulações financeiras. É uma conclusão que Adam Smith teria aprovado plenamente.

Paternidade: Altruísmo ou Investimento?

Geralmente, os pais tratam os filhos com aparente altruísmo. Cobrem-nos de atenção e de presentes sem receber muitas recompensas diretas e apesar dos bebês serem inerentemente egoístas durante boa parte da infância. Apesar de muitos suporem que isso é apenas uma manifestação do amor familiar, Becker tem argumentos diferentes. Ele afirma que a indulgência dos pais é, na verdade, um modo de investir indiretamente em sua própria velhice. Argumenta que a taxa de retorno do investimento nos filhos é maior que a de fundos de aposentadoria, pois é provável que um filho bem-sucedido e rico cuide de seus pais se for preciso.

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