Felicidade | A Economia Não se Resume Apenas ao Dinheiro

Felicidade | A Economia Não se Resume Apenas ao Dinheiro

Tempo de Leitura: 9 Minutos

Na década de 1970, no pequeno reino do Butão, no Himalaia, a economia do país passou por um minucioso exame. Segundo a maioria dos indicadores, o Produto Interno Bruto, Renda Nacional, Nível de Emprego e outros, seu crescimento era muito lento. O rei do Butão fez algo incomum: decretou que, dali em diante, o progresso do país não seria medido por esses parâmetros econômicos tradicionais, mas por sua Felicidade Interna Bruta.

Na época, pode ter parecido uma resposta pouco convencional às críticas externas, mas o rei teve uma ideia que se tornaria um estudo importante e cada vez mais respeitável – o da economia da felicidade. É um assunto que a maioria consegue entender. Como nações e indivíduos, quase todos nós estamos mais ricos e mais saudáveis do que antes. Porém, essa riqueza veio de mãos dadas com mal-estar e descontentamento. Nos últimos 50 anos, os cidadãos de nações ricas vêm se mostrando cada vez menos felizes.

A Busca da Felicidade

A economia tradicional não tem uma explicação satisfatória para isso. Desde a época de Adam Smith, presume-se que a riqueza é a principal medida do progresso de um país. É por esse motivo – e pelo fato de ser fácil medir o dinheiro – que os economistas tendem a se concentrar em medidores como Produto Interno Bruto, Desemprego e um punhado de indicadores sociais como Expectativa de Vida e Desigualdade. Mas até pouco tempo, a felicidade não era um desses medidores, o que, se lembrarmos a importância atribuída pelos filósofos ao contentamento desde os primeiros dias da humanidade, é de se surpreender.

A ideia de que o progresso de um país deve ser medido por sua felicidade não começou há alguns anos no Butão. Em 1776, Thomas Jefferson determinou que os americanos deveria ter o direito não apenas à vida e à liberdade, como também à “busca da felicidade”. Jeremy Bentham, que criou a filosofia do utilitarismo no século XIX, disse que os humanos deveriam almejar a “maior felicidade para o maior número”.

No Butão, a busca da felicidade parece ter produzido resultados concretos. Desde que adotou o Índice da Felicidade Interna Bruta, o país cresceu em um ritmo admirável, mesmo segundo parâmetros econômicos convencionais. Em 2007, foi a segunda economia de mais rápido crescimento no mundo, sem deixar de aumentar sua felicidade interna bruta. Num esforço para manter o nível de satisfação da população, foram baixados decretos que determinam que 60% do país deve se manter coberto por florestas e que o turismo – que aparentemente diminui a felicidade – é limitado. O dinheiro é redistribuído dos ricos para os pobres a fim de eliminar a pobreza maciça.

A Medição da Felicidade

Os esforços para tornar mais feliz o Butão parecem ter dado muitos frutos. Segundo uma pesquisa realizada em 2005, apenas 3% da população não se considerava feliz, e quase metade disse que estava muito feliz. Mas essas pesquisas podem ser vagas, pouco convenientes e de difícil comparação empírica. É bem mais difícil medir a felicidade do que o nível de riqueza ou de expectativa de vida, digamos, e é por isso que ela ficou negligenciada na economia. Todavia, avanços recentes no mapeamento cerebral ajudaram os neurocientistas a identificar a região do sistema nervoso central mais estimulada pela felicidade, e as descobertas ajudaram a acrescentar uma camada de credibilidade científica à medição da felicidade.

A ideologia da felicidade interna bruta conecta as metas de desenvolvimento do Butão com a busca da felicidade. Isso significa que a ideologia reflete a visão do Butão sobre o propósito da vida humana, uma visão que coloca o desenvolvimento pessoal do indivíduo no centro.

Nas últimas décadas, economistas e psicólogos conseguiram começar a medir pela primeira vez, a sério, a felicidade das pessoas em estudos de longo prazo. A conclusão a que chegaram é que apesar da felicidade individual aumentar quando a pessoa passa da pobreza para a riqueza, o nível de satisfação começa a cair à medida que se afasta da linha de pobreza. Segundo Richard Layard, economista britânico especializado na economia da felicidade, quando o salário médio de uma nação supera US$ 20.000, um aumento de renda deixa de fazer as pessoas mais felizes e elas vão ficando menos satisfeitas. Em linguagem econômica, além desse ponto a felicidade tem retorno decrescente.

Este paradoxo é que Richard Easterlin, um dos pioneiros nesses estudos, chama de “ciclo hedonista” (expressão derivada da palavra grega que significa prazer): quando você fica rico, acostuma-se muito rapidamente com isso, e não demora para considerar natural esse novo padrão de vida. Além disso, pesquisas feitas no campo da economia comportamental mostraram que se nossas necessidades básicas estão satisfeitas, paramos de medir nosso contentamento com base em nossas realizações ou riqueza absoluta e começamos a nos comparar com os outros. Diz o ditado que a pessoa fica feliz com seu próprio salário caso ele seja maior que o salário de seu concunhado, e a psicologia comprova isso. As descobertas indicam que nossa cultura de noticiários 24 horas por dia e de celebridades instantâneas, com acesso permanente ao estilo de vida dos ricos, belos e famosos, acaba reduzindo ainda mais a satisfação das pessoas.

Dinheiro Não é Tudo

Ministros de países que vão do Reino Unido e Austrália à China e Tailândia estão determinados a encontrar uma medida internacional de bem-estar interno bruto. Embora alguns economistas tradicionais ironizem esse objetivo, seria errado presumir que a atual coleção de parâmetros para avaliar o progresso de um país seja definitiva. Uma medida independente, idealizada pela New Economics Foundation, é o Índice Planeta Feliz, que combina medias como a satisfação nacional com a vida, a expectativa de vida e a pegada ecológica per capita. Segundo ele, o país com melhor pontuação em 2006 foi a ilha de Vanuatu, no Pacífico,seguida pela Colômbia e Costa Rica, enquanto Burundi, Suazilândia e Zimbábue foram os piores. A maioria dos países mais ricos do mundo, inclusive os EUA e o Reino Unido, aparece abaixo da metade da lista.

A economia da felicidade tem influenciado cada vez mais a maneira como os políticos dos países desenvolvidos criam leis. Já foi sugerido, por exemplo, que impostos maiores sobre quem ganha mais torna feliz a sociedade como um todo, pois isso reduz o nível nacional de inveja. Outra ideia é que as empresas deveriam limitar a parcela salarial devida ao mérito. Lorde Layard sugeriu que se financiem programas maciços de terapia cognitiva comportamental para todos os membros da população. Embora tais ideias sejam controvertidas, estão ganhando força no Reino Unido e nos EUA, onde os políticos procuram uma forma de inspirar eleitores apáticos.

O desenvolvimento da economia da felicidade inspirou certa reação negativa. Alguns psicólogos afirmam que o descontentamento e a inveja podem ter um papel importante na motivação para o aprimoramento individual. Além disso, há a questão de se saber se almejar a felicidade de uma nação é moralmente justificável. Em 1990, o Butão expulsou de seu território 100.000 forasteiros de outra etnia. Aparentemente, a medida aumentou a felicidade nacional, mas ao custo de prejudicar o histórico de direitos humanos do país. É claro que a riqueza não é tudo, mas tampouco o é a felicidade.

A Hierarquia das Necessidades

Existem algumas necessidades humanas básicas, que devem ser satisfeitas se queremos ser felizes. Vão desde aquelas ligadas à fisiologia (o funcionamento apropriado das funções corporais) e à segurança (abrigo, emprego, saúde), ao amor, estima e moralidade. Essa hierarquia, apresentada pelo psicólogo Abraham Maslow em um trabalho de 1943, resume aquilo que contribui para a satisfação humana. Os economistas que lidam com a felicidade perceberam que quando se satisfaz a maioria das necessidades mais simples – a fisiologia e a segurança – a felicidade chega até a diminuir.

FIB

O Índice de Felicidade Interna Bruta é baseado na premissa de que o objetivo principal de uma sociedade não deveria ser somente o crescimento econômico, mas a integração do desenvolvimento material com o psicológico, o cultural e o espiritual – sempre em harmonia com a Terra.

As nove dimensões do FIB são:

1. Bem-Estar Psicológico Grau de satisfação e de otimismo que cada indivíduo tem em relação a sua própria vida. Os indicadores incluem a prevalência de taxas de emoções tanto positivas quanto negativas, e analisam a auto-estima, sensação de competência, estresse e atividades espirituais. 2. Saúde Mede a eficacia das políticas de saúde, com critérios como auto-avaliação da saúde, invalidez, padrões de comportamento arriscados, exercício, sono e nutrição. 3. Uso do Tempo O uso do tempo é um dos mais significativos fatores na qualidade de vida, especialmente o tempo para lazer e socialização com família e amigos. A gestão equilibrada do tempo é avaliada, incluindo tempo no trânsito, no trabalho e nas atividades educacionais. 4. Vitalidade Comunitária Foca nos relacionamentos e interações nas comunidades. Examina o nível de confiança, a sensação de pertencimento, a vitalidade dos relacionamentos afetivos, a segurança em casa e na comunidade, a prática de doação e de voluntariado. 5. Educação Leva em conta vários fatores como participação em educação formal e informal, competências, envolvimento na educação dos filhos, valores em educação e educação ambiental. 6. Cultura Avalia as tradições locais, festivais, valores nucleares, participação em eventos culturais, oportunidades de desenvolver capacidades artísticas e discriminação por causa de religião, raça ou gênero. 7. Meio Ambiente Mede a percepção dos cidadãos quanto a qualidade da água, do ar, do solo e da biodiversidade. Os indicadores incluem acesso a áreas verdes, sistema de coleta de lixo e vários outros. 8. Governança Avalia como a população enxerga o governo, a mídia, o judiciário, o sistema eleitoral e a segurança pública em termos de responsabilidade, honestidade e transparência. Também mede a cidadania e o envolvimento dos cidadãos com as decisões e os processos políticos. 9. Padrão de Vida Avalia a renda individual e familiar, a segurança financeira, o nível de dívidas e a qualidade das habitações.

Deixe uma resposta