Globalização | A Adrenalina do Capitalismo

Globalização | A Adrenalina do Capitalismo

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Do mesmo modo como capitalismo já foi uma expressão pejorativa em vez de elogio ou mera descrição, globalização tem sido mais usada para criticar do que para elogiar a economia do século XXI. Evoca imagens de oficinas de trabalho escravo na Malásia, centrais de atendimento em Bangalore, minas no Brasil e filiais do Starbucks e do McDonalds no mundo todo.

Tudo isso é consequência da globalização, mas descrever o fenômeno apenas nesses termos seria muito enganoso. Em economia, globalização refere-se aos vínculos comerciais e econômicos que ligam o mundo e que têm sido tão importantes para a história da humanidade.

Tão Antiga Quanto as Montanhas?

A Globalização tem ficado cada vez mais importante desde 1942, ano em que Colombo desembarcou na América, embora já houvesse um vibrante comércio internacional entre a Europa e o Oriente muito antes disso. Apesar do uso da expressão ter ficado mais comum a partir da década de 1980, foi com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria que houve o divisor de águas da globalização, estamos longe de ser a primeira era de amplo comércio, intercâmbio e migração internacional. Esse título deve ir para a era vitoriana. No final do século XIX, quando o império britânico chegou ao seu apogeu, John Maynard Keynes descreve que, antes de 1914:

O morador de Londres podia encomendar pelo telefone, enquanto saboreava seu chá matinal, diversos produtos do mundo todo, aguardando sua entrega rápida em sua casa; ao mesmo tempo, e pelo mesmo meio, podia aventurar-se nos recursos naturais e em novos empreendimentos feitos em qualquer parte do planete, colhendo… seus frutos e vantagens posteriores…

Não foi só a Primeira Guerra Mundial, mas também o período de protecionismo após a Grande Depressão que pôs fim a essa era. Muitos temem que esta era moderna de globalização poderia encontrar um fim igualmente triste.

Fatores Vitais para a Globalização

A Globalização mais recente baseia-se em cinco fatores cruciais:

1. Livre Comércio Governos do mundo todo derrubaram diversas barreiras e tarifas sobre importações e exportações. A China, por exemplo, depois de adotar reformas sobre livre comércio no final da década de 1980 e início da seguinte, removeu muitas restrições sobre seus mercados de exportação. Em função de sua imensa população, e portanto de salários baixos, isso significou que as nações ricas receberam um fluxo de mercadorias baratas provenientes da China e de seus vizinhos.

2. Terceirização As companhias têm conseguido economizar transferindo a produção de seus bens e serviços para lugares mais econômicos no exterior. Muitas fábricas fecharam suas unidades nos Estados Unidos e na Europa, mudando-as para a China, México e outros lugares onde os trabalhadores aceitam salários mais baixos e – o que suscita controvérsias – as condições de trabalho costumam ser piores. Muitas empresas de serviços transferiram suas centrais de atendimento, e até partes de seu principal negócio, para a Índia e outros lugares onde são abundantes os graduados que falam inglês fluente.

3. A Revolução das Comunicações Duas revoluções importantes azeitaram as rodas do comércio internacional. A primeira foi a “conteinerização” – a revolução dos transportes, pela qual bens são transportados para o mundo todo em contêineres de tamanho padronizado, a custo reduzido e menor período de trânsito. A segunda foi a revolução na banda larga. Quando a mania da internet atingiu seu apogeu no final da década de 1990, os engenheiros gastaram bilhões em uma nova rede internacional de cabos de fibra óptica. Apesar da bolha das “ponto.com” ter estourado pouco depois, essa rede global de autoestradas da informação proporcionou uma conexão rápida e barata à internet para milhões de pessoas.

4. Liberalização Muitos países que mantiveram suas fronteiras fechadas a contatos com o exterior durante a Guerra Fria foram estimulados a abri-las. Isso permitiu que companhias ocidentais ganhassem novos mercados. A eliminação dos chamados controles à circulação de capital fez com que o dinheiro pudesse circular livremente para dentro e para fora dessas novas economias de um modo que nunca fora feito antes. Enquanto isso, governos do mundo desenvolvido facilitaram a contratação e dispensa de trabalhadores para as empresas, afrouxando as leis trabalhistas.

5. Harmonização Jurídica Países do mundo todo se esforçaram para alinhar suas leis sobre direitos de propriedade e de propriedade intelectual, de tal maneira que uma patente requerida nos EUA, por exemplo, é reconhecida na China e vice-versa. Entre os planos para o futuro, inclui-se a criação de padrões internacionais para a qualidade das mercadorias a fim de evitar a repetição de incidentes como aqueles em que produtos chineses e de outros lugares tinham defeitos potencialmente perigosos.

Ganhos da Globalização

Sem dúvida, a globalização fez com que bilhões de pessoas pelo mundo ficassem significativamente mais ricas. As economias de países como Brasil, Índia e China receberam um forte impulso graças a aumentos significativos em suas exportações. Além disso, a entrada desse novo grupo de exportadores reduziu a inflação mundial durante quase uma década a partir de 1997, pois as empresas aproveitaram a oportunidade para reduzir custos e repassar as economias resultantes a seus clientes.

De fato, há muitas evidências a sugerir que a globalização foi, em grande parte, responsável pelo período que ficou conhecido como a “Grande Estabilidade” desses quinze anos até 2007. Nesse período, a economia mundial cresceu mais rapidamente e por mais tempo do que antes, e a inflação se manteve baixa e estável. É fato que a ele se seguiu uma grave crise financeira, mas esta deveu-se principalmente a outros fatores.

Críticas à Globalização

Quanto mais rápida a difusão pelo mundo dos fundamentos da globalização mais estridentes as críticas feitas a ela. Normalmente, as reuniões das principais instituições multilaterais atraem milhares de manifestantes. A reunião da Organização Mundial de Comércio em Cancun em 2003, por exemplo, foi manchada pelo suicídio de um agricultor sul-coreano em protesto pela retirada do apoio à agricultura.

Críticos da globalização, entre os quais Naomi Klein, Joseph Stiglitz e Noam Chomsky, costumam rotular seus defensores mair ardorosos de neoliberais. O ataque ao fenômeno dá-se sob três ângulos:

1. Econômico Alegam que a globalização elevou a riqueza total gerada no mundo, mas que essa riqueza não foi distribuída equitativamente. Com efeito, os níveis de desigualdade no mudo todo atingiram seus valores mais altos desde a década de 1930, e embora alguns tenham se tornado bilionários graças ao comércio global, muitos nos países mais carentes continuam a ser extremamente pobres.

2. Direitos Humanos Alguns dos maiores fabricantes de roupas e calçados foram alvo de críticas por usarem oficinal de trabalho escravo, nas quais os empregados recebem salários extremamente baixos e são forçados a trabalhar em condições pavorosas durante longas jornadas.

3. Cultural Os críticos dizem que a crescente influência de corporações multinacionais e o domínio cada vez maior de marcas ocidentais têm dificultado a manutenção da identidade de culturas indígenas, fazendo com que pequenas lojas e produtores independentes fiquem de lado no mercado.

Uma Era de Paz e Democracia?

Malgrado as inúmeras críticas à globalização, as evidências mostram que, de modo geral, ela melhorou sensivelmente o nível de vida nos países que a acolheram – embora, como sempre ocorre no capitalismo, os ganhos não sejam distribuídos igualmente. Ademais, como fomenta as fortunas das classes média e profissional, alguns sugerem que a globalização também ajuda a disseminar a democracia. Estrategistas políticos suspeitam que o Partido Comunista pode ter dificuldades para se manter no poder na China, uma vez que vem aumentando a demanda popular por um regime democrático, alimentada pela influência crescente da classe média.

Outro argumento a favor da globalização é que vínculos econômicos mais fortes entre nações tendem a dissuadi-las de entrar em guerra uma contra a outra. Thomas Friedman, jornalista norte-americano e autor de The World is Flat, verdadeira apologia à globalização, postulou que nunca dois países que têm lojas do McDonalds entraram em guerra mútua. No entanto, essa afirmativa foi invalidada quando a Rússia declarou guerra à Geórgia em 2008. E a lição aprendida com a primeira era da globalização, encerrada com o terror da Primeira Guerra Mundial, é que nunca podemos presumir que a difusão do comércio e da riqueza tenha mudado o mundo para sempre.

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