Inflação | Está Tudo Sob Controle!

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Dependendo da fonte, a inflação pode limpar seus dentes ou arrancá-los. Ronald Reagan, ex-presidente dos Estados Unidos, descreveu-a como “tão violenta quanto um assaltante, tão assustadora quanto um ladrão armado e tão mortal como um assassino”. Karl Otto Pöhl, ex-presidente do Bundesbank alemão, disse: “A inflação é como pasta de dentes: depois que sai [do tubo], é muito difícil colocá-la de volta”.

Na verdade, na maioria das vezes, a inflação – o fenômeno do aumento de preços – não é nenhuma dessas coisas. Fazer com que os preços aumentem lenta e previsivelmente tornou-se um dos papéis mais importantes – se não o mais importante – dos bancos centrais e dos governos na administração de suas economias. Mas a inflação tem a desagradável tendência de sair do controle.

Níveis de Inflação

Geralmente, a inflação se expressa em termos anuais. Logo, uma taxa de inflação de 3% significa que, em uma economia, os preços estão em média 3% maiores do que 12 meses antes.

Como uma das estatísticas econômicas mais reveladoras, a inflação pode ajudar a ilustrar se uma economia goza de boa saúde, está superaquecida ou em lento declínio. Se for alta, a economia corre o risco de se ver presa a uma espiral inflacionária – quando os preços sobem exponencialmente – ou mesmo a uma hiperinflação; a diferença entre uma e outra depende da magnitude dos aumentos de preços. A hiperinflação, que afligiu a Alemanha na década de 1920 e o Zimbábue na primeira década do novo milênio, envolve aumentos de preços de 50%, no mínimo – e às vezes, até maiores – em apenas um mês. No pico da hiperinflação, em 1923, a Alemanha de Weimar teve de emitir notas de 100 trilhões de marcos.

Até uma inflação mais baixa, de cerca de 20%, pode ser muito prejudicial, especialmente quando, tal como ocorreu nos EUA e no Reino Unido na década de 1970, vem acompanhada de fraco crescimento econômico ou de recessão. O resultado costuma ser conhecido como estagflação (crescimento estagnado e inflação alta), e nos EUA e no Reino Unido ela aumentou o desemprego e promoveu bancarrotas durante muitos anos. Em suma, a inflação tem o poder de levar à ruína as economias que um dia foram altivas e saudáveis.

Causas e Efeitos

A inflação nos diz algo sobre condições sociais e econômicas. Comparando a velocidade com que o custo de vida aumenta com a velocidade em que a renda familiar aumenta, é possível calcular o ritmo em que o nível de vida de uma sociedade está melhorando. Se a inflação anda mais depressa do que os salários das famílias, seu nível de vida está caindo: as pessoas não conseguem mais comprar tantos bens quanto antes. Por outro lado, quando os salários sobem mais depressa do que a inflação, as pessoas têm mais dinheiro nos bolsos após fazerem as compras do mês: seu nível de vida melhora.

Quando uma economia cresce rapidamente, os empregados recebem generosos aumentos de salário, o que significa que irão gastar mais em bens e serviços. Em resposta à maior demanda, os preços tenderão a aumentar, seja de imóveis, seja de cortes de cabelo. Do mesmo modo, se a economia desacelerar, a demanda vai acompanhá-la e os preços vão baixar, ou, no mínimo, aumentar a um ritmo menor.

“A inflação é uma forma de tributação que pode ser imposta sem legislação” – Milton Friedman

O preço dos bens é afetado não só pela demanda como pela quantidade de dinheiro que as pessoas têm a disposição. Se a oferta de dinheiro aumenta (seja porque foi impresso mais dinheiro, seja porque os bancos estão emprestando mais), haverá mais dinheiro para adquirir o mesmo volume de bens, o que vai aumentar os preços. A discussão sobre a forma exata de influir nesse processo foi uma das maiores batalhas intelectuais do século XX, travada entre monetaristas e keynesianos.

Crescimento Econômico e Inflação

A Escola Austríaca diz que se a oferta monetária dobrar em uma economia, a produção agregada — aqui entendida como a soma de todas as produções de indivíduos e empresas — não será duplicada. Os preços dos bens e serviços ofertados nessa economia, porém, tenderão a subir sobremaneira; neste caso aumentou-se apenas a demanda nominal.

Para um aumento da demanda real, a economia deve produzir mais e isso causaria um efeito deflacionário e não inflacionário. Já a queda da demanda real, quando há uma produção menor na economia, exerceria inevitavelmente, pressões inflacionárias. Este conceito de demanda nominal e demanda real tem origem na Lei de Say que diz que “a oferta gera sua própria demanda”.

Portanto, quanto mais bens e serviços são ofertados no país há crescimento econômico e menores tendem a ser os preços, quanto menos bens e serviços são ofertados há recessão e maiores tendem a ser os preços – lei de oferta e da demanda. Assim, quando uma economia está em crescimento, os preços caem, quando uma economia está em contração, os preços sobem.

A proposta de Keynes sugere que, se a demanda continuar a crescer, existirá um ponto em que os empregos vagos (vacância) serão tão numerosos que as empresas tentarão reter os trabalhadores oferecendo salários mais altos. O aumento no custo do trabalho mais a existência de demanda que as empresas não são capazes de satisfazer geram um aumento de preços e assim começa o processo inflacionário, que pode terminar, entretanto, se a demanda agregada, em termos reais, for reconduzida abaixo do nível crítico. Essa relação entre demanda e emprego é mostrada pela Curva de Beveridge.

Sempre Teremos Inflação?

Uma pergunta feita com frequência é se os preços têm de subir sempre: não poderiam estabilizar-se? Na verdade, podem ser congelados, e em diversos momentos da história isso aconteceu. Embora em teoria a inflação não seja necessária para o funcionamento das economias, a tendência dos políticos, especialmente no último século, é estimular um pouco de inflação em suas economias, por diversos motivos.

Primeiro, e mais importante, a inflação estimula mais as pessoas a gastar do que a poupar, porque corrói lentamente o valor do dinheiro nos bolsos. É essencial ter certo grau desse ímpeto para a frente nas modernas economias capitalistas, pois, a longo prazo, incentiva as empresas a investirem em novas tecnologias. No entanto, a inflação também corrói a dívida, o que no passado levou governos endividados a deixá-la crescer ainda mais, reduzindo com eficácia a quantidade de dinheiro que deviam.

De modo similar, geralmente os níveis de inflação mostram-se similares às taxas de juros, e as pessoas estão acostumadas a taxas de juros positivas, e não negativas. Foram muito poucos os bancos que cobraram seus clientes por poupar e lhes pagaram para tomar empréstimos (como aconteceria em um mundo de taxas negativas de juros), e só em épocas de crises, quando era essencial estimular as pessoas a gastar e não a poupar.

Por fim, as pessoas estão intrinsecamente acostumadas a esperar aumentos de salário. É da natureza humana: as pessoas se esforçam para melhorar e não gostam muito de saber que sua remuneração vai se manter a mesma, embora os preços nas lojas continuem mais ou menos estáticos.

Espirais Inflacionários

Às vezes, os preços podem aumentar de modo exponencial, um processo comumente chamado de espiral inflacionária. Quanto mais a inflação sobe, maior o descontentamento entre os trabalhadores, que observam a deterioração de seu nível de vida. Exigem salários mais altos, e, se conseguem, gastam o que ganharam, o que, por sua vez, leva os lojistas a elevarem seus preços. Isso aumenta ainda mais a inflação, o que motiva novamente os trabalhadores a pedir novos aumentos a seus patrões.

O pior problema da inflação excessiva – e também da deflação – é que ela pode desestabilizar seriamente a economia. Quando as empresas e as famílias se sentem inseguras sobre a velocidade de aumento ou de diminuição dos preços, deixam de investir e de poupar e a vida cotidiana dá uma parada. É por isso que governos e bancos centrais se esforçam para manter o aumento de preços dentro de um ritmo previsível. Quando não conseguem, então – como Ronald Reagan lembrou muito bem – as pessoas enfrentam uma experiência tremendamente desagradável.

O Dragão da Inflação

O Brasil utiliza, como simbolo da inflação, um dragão simpático, daqueles do tipo saído de um conto de fadas ou de um desenho animado, cuja cauda serve para representar a curva da inflação. Essa representação teve origem no sincretismo entre a religião católica, onde temos a figura de São Jorge combatendo o dragão, e algumas crenças de origens africanas ou indígenas, de onde surgem também outras metáforas derivadas como a macumba econômica e o vodu dos preços.

O termo surgiu por volta de 1985 com a posse do presidente José Sarney, quando a inflação anual chegou a 239% e bateu o recorde histórico. Ao associar a imagem do dragão ao da inflação criou-se uma metáfora onde a inflação era o adversário, percebida como um elemento externo à política governamental, que se esforçava em combatê-la, assim como São Jorge, tínhamos uma esperança implícita que ele sairá vencedor.  A metáfora cria novas realidades, ela apresenta-se, pois, como uma maneira de controlar a situação: Slogan de Sarney: Está tudo sob controle .

Mesmo quando foi dito explicitamente que o culpado da inflação é o governo, há sempre referências a fatos passados (governo militar) ou futuros (Collor) e o papel negativo do governo é sempre ocultado. Esse tipo de metáfora deu-lhe uma ampla liberdade de ação.

Uma resposta

  1. […] e o crescimento econômico parou, deixando o país, bem como várias outras nações ocidentais, na estagflação. O desemprego nos EUA passou de 4,9% para 8,5% no mesmo […]

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