Moedas e Taxas de Câmbio | O Barômetro do Prestígio de um País

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Há alguns anos, especialistas da Reserva Federal em Washington DC criaram um modelo destinado a predizer as tendências futuras das principais moedas do mundo. Tinham acesso a mais informações sobre mercados de câmbio do que os economistas dos outros países e estavam confiantes em seu sucesso. Durante meses, trabalharam no projeto até que, finalmente, chegou a hora de ligar a máquina…

Passados alguns dias, ficou claro que o experimento fora um completo fracasso. Segundo Alan Greenspan, então presidente do Fed, “A taxa de retorno sobre esse investimento em tempo, esforço e pessoal foi zero”. Esse resultado não foi tão surpreendente assim. Os mercados de câmbio atraem trilhões de dólares de investimentos especulativos todos os anos, e os investidores tentam adivinhar quais serão os movimentos das moedas estrangeiras. Provavelmente, porém, trata-se do mais volátil e imprevisível de todos os mercados.

Quando viajamos para o exterior, todos nós especulamos com o câmbio. Assim que trocamos reais ou dólares por pesos ou euros estamos investindo em uma moeda estrangeira, cujo valor terá aumentado ou diminuído quando voltarmos para casa.

Mercados de Câmbio

Os mercados de câmbio, muitas vezes chamados de Forex (acrônimo de foreign exchange, “câmbio”, em inglês), são os lugares onde investidores compram e vendem moedas. São das mais antigas instituições financeiras do mundo, datando da época dos romanos, ou mesmo de antes, e funcionam desde que surgiu o dinheiro e o comércio internacional. Mas os romanos se espantariam ao ver o tamanho, a sofisticação e a dimensão internacional desses mercados hoje em dia.

Todos os anos, trilhões de dólares (ou de euros, ou de libras) em moeda são comprados e vendidos pelos investidores. Às vezes esses investidores são empresas, desejosas de garantir que seus lucros não irão evaporar caso o dólar se fortaleça, por exemplo, encarecendo muito mais suas importações dos Estados Unidos. O que buscam é uma cobertura cambial para se protegerem de riscos. Às vezes são governos que intervêm no mercado cambial para garantir a manutenção de sua própria moeda em determinado nível. Em outras vezes, são investidores e gerentes de fundos de cobertura (hedge) ou multimercados com um palpite que determinada moeda está prestes a cair. E às vezes são apenas turistas estrangeiros, tal como você e eu.

Ascensões e Quedas

São muitos os motivos para o valor de uma moeda aumentar ou diminuir, mas dois afetam particularmente seu comportamento. O primeiro, e mais importante, é que a moeda tende a se valorizar juntamente com a percepção da saúde econômica do país e que está associada (ou da jurisdição que a emite). Segundo, quem investe em moedas costuma buscar a moeda com o maior rendimento. Se um país tem taxas de juros altas, isso significa que os títulos do governo e outras oportunidades de investimento que emite vão oferecer um retorno maior que os de um país com taxas de juros mais baixas. Investidores do mundo todo as compram, e por conta da demanda extra pelos investimentos desse país, o valor de sua moeda aumenta. Em contraste, a moeda se deprecia quando as taxas são baixas e as pessoas abandonam os investimentos denominados nessa moeda.

Flutuante ou Fixo?

Desde a década de 1970, quase todos os países do mundo ocidental têm permitido que suas moedas flutuem, com o valor relativo a outras moedas aumentando e diminuindo segundo determinam os mercados. Contudo, há exceções notáveis, e alguns países fixam o valor de suas moedas a outra ou a um grupo de moedas. O exemplo mais notável é o da China, cujo governo controla cuidadosamente o valor do renminbi com relação ao dólar comprando ativos denominados em dólar sempre que necessário.

Outras nações intervêm ocasionalmente fazendo a mesma coisa, caso acreditem que sua moeda está super ou subvalorizada. O Japão e a zona do euro têm feito isso desde a virada do milênio. Há fortes evidências mostrando que é muito benéfico para nações vulneráveis e emergentes ficas a moeda dessa maneira, pois isso melhora a estabilidade, estimula as pessoas a investir e ajuda as relações comerciais.

Até pouco tempo atrás, o câmbio flutuante não era a regra no mundo. Durante boa parte dos séculos XIX e XX, os governos mantiveram fixas as taxas de câmbio de suas moedas. Na época do padrão-ouro, fixavam o valor de suas divisas com base na quantidade de ouro que tinham em seus cofres. A ideia era que o ouro é uma moeda universal, com o mesmo valor em qualquer parte do mundo.

O sistema melhorou o comércio global, pois as empresas não precisavam mais se preocupar com a possibilidade de a valorização ou desvalorização das moedas dos países para os quais exportavam afetarem seus lucros. O problema é que o ouro extraído não conseguiu acompanhar o ritmo do comércio e dos investimentos. Finalmente, o padrão-ouro acabou se tornando uma limitação séria para as economias que cresciam rapidamente, sendo abandonado por muitos países na época da Grande Depressão.

Bretton Woods

Depois da Segunda Guerra Mundial, um grupo de economistas e políticos reuniu-se no elegante Hotel Mount Washington, na cidade de Bretton Woods, New Hampshire, para idealizar um novo sistema de regulação das taxas de câmbio internacionais. Criaram um sistema de taxa fixa, na época alinhada com o dólar dos EUA – que na época era claramente a superpotência econômica mundial – pois o dólar era estável, com o valor ficado com relação ao ouro. Todos os países se comprometeram a vincular sua moeda ao dólar, ou seja, garantir que ela equivaleria a certo número de dólares.

O problema de fixar uma moeda com base em outra, porém, é que o país perde um pouco da sua capacidade de controlar a economia. Quando um país de uma união monetária aumenta suas taxas de juros, os demais têm de fazer o mesmo para evitar o risco de desencadear uma séria espiral inflacionária. O acordo traçado em Bretton Woods começou a ruir em 1966, mas, como veremos, não foi o último dos principais sistemas monetários.

Especulação com Moedas

Alguns dizem que o sistema de taxas de câmbio fixas podem mascarar o verdadeiro valor de uma moeda, e recentemente viram-se muitos casos em que especuladores lançaram ataques à moeda de um país, vendendo-a na crença de que a relação cambial era insustentável. Isso aconteceu em diversos países asiáticos durante a crise financeira do final da década de 1990 e, mais notoriamente ainda, com a libra. Na “Quarta-Feira Negra” de setembro de 1992, o Reino Unido foi forçado a abandonar sua breve participação no Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio após o ataque de especuladores, liderados pelo bilionário dos fundos de cobertura George Soros. Mesmo elevando as taxas de juros a níveis de dois algarismos, o Tesouro Britânico foi incapaz de impedir a fuga de investidores da libra, acabando por se render, permitindo que a moeda fosse depreciada (desvalorizada) em relação a outras moedas do mundo. Foi um dia traumático para a economia do Reino Unido, e resume com precisão a maneira direta com que o nível de uma moeda reflete a percepção das políticas econômicas de um país.

 

O Euro e as Uniões Monetárias

A mais famosa união monetária, situação na qual diferentes países compartilham a mesma moeda, é o euro – a união monetária europeia. Precedido pelo Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio (com sigla ERM, em inglês), que possibilitou aos possíveis membros manterem suas economias atreladas, o euro foi introduzido em 2002, substituindo as moedas de cada Estado-membro.

No passado, outras tentativas de se adotar outros sistemas monetários fracassaram sempre que os governos quiseram ser independentes em política econômica, mas os fundadores do euro resolveram isso criando um Banco Central para estabelecer as taxas de juros para toda a zona do euro, e um acordo sobre os limites dentro dos quais os governos podem tomar empréstimos e gastar.

Mais recentemente, tem havido conversações entre países do Golfo Pérsico e da América Latina sobre possíveis uniões monetárias.

 

Real – A Moeda Brasileira

A moeda foi criada pelo Plano Real em 1º de julho de 1994 com regime cambial fixo em relação a um conjunto de moedas liderado pelo dólar dos Estados Unidos, no início com aproximadamente o mesmo valor que este último. Isto significava que o real tinha um teto e um piso previamente definido para que o valor da moeda flutuasse. Caso a cotação chegasse ao teto, o Governo se comprometia a vender dólares e forçar queda de cotação. O inverso acontecia quando a cotação atingia o piso. Contudo, surpreendendo muitos, o real valorizou-se logo após ser lançado. Depois de um curto período de valorização no final de 1994 e início de 1995, quando o real chegou a valer 1,20 USD (câmbio comercial, 31 de março de 1995), o controle do Banco Central decidiu por uma desvalorização gradual da moeda, de 1 R$ / 1 USD em 1995 para cerca de 1,2 / 1 no final de 1998.

Em janeiro de 1999, entretanto, em decorrência da crise financeira asiática em 1997, da quebra da Rússia em 1998 e da crise financeira na Argentina, levou o Banco Central do Brasil a abandonar o modelo de câmbio semifixo e a deixar o câmbio flutuar livremente. A súbita desvalorização do real no início de 1999, de 1,2 / 1 para quase 2,0 / 1 marcou o fim da absoluta previsibilidade do câmbio. Entre 1999 e 2003 o câmbio evoluiu de maneira irregular mas geralmente no sentido de desvalorização, atingindo a cotação mínima de R$ 3,9 R$ / 1 USD no final de 2002. Em seguida a tendência geral se inverteu, e em 2006 o câmbio havia retornado ao patamar de 2,2 / 1. Desde essa época o câmbio tem flutuado ao redor de 2 reais para 1 dólar. Em 2016 após sucessivas crises na política brasileira e irregularidades fiscais o câmbio retornou àquele patamar de 2002, e manteve-se a 4,00 R$ / 1 USD.

  1. […] nem sempre é assim. Como mencionado anteriormente, em vários momentos da história houve sistemas de taxas de câmbio fixas, entre os quais o mais […]

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