Multilateralismo

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Os anos que se passaram desde a virada do milênio testemunharam uma das maiores mudanças de poder na economia global. As placas tectônicas que sustentam a economia mundial começaram a se mover com mais velocidade do que a maioria já viu. Com o surgimento de uma nova espécie de contendores, liderados pela China e pela Índia, a impressão foi que os Estados Unidos começaram a perder a posição indiscutível de superpotência mundial. No passado, momentos assim provocavam instabilidade geopolítica, mas os economistas esperam que, desta vez, uma arma secreta evite o conflito: o multilateralismo.

Multilateralismo significa que um país colabora com todos os outros na tomada de decisões importantes, em vez de agir sozinho – unilateralmente – ou em parceria com outro país (ou grupo de países) – bilateralmente. Parece simples bom senso, mas em uma era de globalização, o nacionalismo econômico ainda é uma força poderosa.

Em geral, quando um país decide elevar as tarifas alfandegárias ou inflar artificialmente o valor de sua moeda, provoca uma reação em cadeia que pode causar danos graves a outros países. A década de 1990 e a primeira década do novo milênio, por exemplo, foram caracterizadas pelo fato de países desenvolvidos deixarem suas taxas de câmbio flutuarem livremente, enquanto muitas nações asiáticas e do Oriente Médio fixaram suas moedas com base no dólar. Embora isso tenha permitido um crescimento um pouco mais rápido de países em desenvolvimento (pois manteve suas exportações mais baratas), acabou levando a um acúmulo maciço de dívidas no mundo rico, o que, por sua vez, contribuiu para a crise financeira de 2008.

“Graças ao intercâmbio, a prosperidade de um homem beneficia todos os demais.” Frédéric Bastiat

Foi para evitar problemas como esses que políticos do mundo todo desenvolveram instituições multilaterais. A primeira foi a Liga das Nações, idealizada pelo presidente Woodrow Wilson após a Primeira Guerra Mundial e que mais tarde se transformaria nas Nações Unidas. Todavia, foi a safra de instituições econômicas multilaterais surgida após a Segunda Guerra Mundial que passou a dominar as relações entre as economias modernas nos últimos anos.

Filhos de Bretton Woods

Na conferência de Bretton Woods, realizada em 1944 no opulento Hotel Mount Washington, políticos do mundo todo, sob a tutela de John Maynard Keynes, sentaram-se para criar uma nova arquitetura financeira e econômica para o mundo do pós-guerra. Além do sistema de taxas de câmbio fixas, criaram duas instituições importantes: o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o antecessor do atual Banco Mundial, o Bando Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). Também estabeleceram o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (com sigla em inglês GATT), que depois metamorfoseou-se na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Essas organizações multilaterais, que contam com quase todos os países do mundo entre seus membros, excetuados alguns regimes despóticos, ainda determinam a forma da economia global e a maneira como os países interagem uns com os outros.

O FMI atua como o banco central do mundo, arrecadando recursos entre sues membros e emprestando dinheiro para aqueles que estão passando por uma grave crise monetária ou de conta de capital. É uma fonte de empréstimos de última instância – mas para países, e não para bancos ou companhias. Seu segundo papel é assegurar-se de que os países estão administrando suas economias de maneira sensata, sem gerar problemas no futuro. Entretanto, por não ter “dentes” (o poder de impor disciplina a quem o desafia), ele não conseguiu impedir que alguns países tomassem más decisões econômicas no passado.

A Organização Mundial do Comércio é tanto um fórum no qual os países concordam com a remoção de barreiras comerciais quanto um árbitro ao qual um país recorre quando suspeita que outro está impondo ilegalmente cotas ou tarifas alfandegárias extras sobre seus produtos. Ela defende a redução de barreiras comerciais no mundo todo.

O Banco Mundial foi idealizado para proporcionar assistência aos países mais pobres do mundo. Emprestando – e, em alguns casos, doando – dinheiro para economias com problemas, a meta do Banco é tornar a economia mundial mais rica e estável. Porém, tem sido criticado pelas duras condições impostas a aqueles para quem empresta dinheiro – uma crítica que também tem sido dirigida ao FMI.

Sem Consenso

Durante a década de 1990, o FMI e o Banco Mundial tentaram impor políticas que remodelariam outras economias segundo seus próprios ideais, o que ficou conhecido como Consenso de Washington. A receita, que incluía o corte de déficits orçamentários e a abertura do mercado interno, foi descrita por Dani Rodrik, economista de Harvard, como “estabilizar, privatizar e liberalizar”. O problema é que muitas economias simplesmente não conseguiram lidar com o fluxo maciço de capital do exterior que receberam quando abriram seus mercados para investidores estrangeiros.

Desde o fim da Guerra Fria e após a crise financeira de 2008, as instituições enfrentaram críticas crescentes por não terem conseguido impedir diversas crises em várias partes do mundo. A atitude dos EUA quanto a elas foi se tornando cada vez mais fria, com pedidos de reformas importantes – especialmente no FMI e no Banco Mundial.

Entre outras preocupações, diz-se que o FMI não representa suficientemente bem as novas potências econômicas mundiais e seu crescimento acelerado. Até pouco tempo atrás, a China – que cresceu tão depressa que está perto de se tornar a terceira economia do mundo – tinha o mesmo número de votos que a Bélgica.

Do G7 ao G20

A mesma crítica foi dirigida ao G7 – grupo das sete economias mais industrializadas do mundo. Esse grupo – que compreendia Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá – era uma representação justa das maiores potências do mundo entre as décadas de 1970 e 1990. Sempre que havia uma reunião econômica internacional importante, era dominada pelo G7, cujos membros tomavam grandes decisões de comum acordo entre si.

Contudo, em 2008, quando o ex-presidente George W. Bush convocou uma reunião de cúpula especialmente para discutir a crise financeira, ficou evidente que países como China, Brasil, Rússia e Índia tinham de ser incluídos. Assim, o G7 foi substituído pelo G20 – um grupo bem mais amplo das maiores economias do mundo.

O que se espera com a cooperação multilateral é que os membros (19 países mais a União Europeia) consigam fazer com que passemos de um mundo com uma única superpotência econômica para um mundo com duas ou mais.

O BRICs

O BRICs é uma ideia, um fenômeno e um quarteto de países mais promissores do mundo: Brasil, Rússia, Índia e China. Se a economia do século XX foi dominada pelo G7, certamente o século XXI será dominado pelo BRICs. A população maciça desses países, seu apetite incrível pelo trabalho e seu crescimento prodigioso significam que já são responsáveis por cerca de metade do crescimento econômico do mundo nos últimos anos. O homem que criou a expressão, Jim O’Neil, economista chefe do Goldman Sachs, calculou que a China estava crescendo tão depressa que em meados do século XXI ultrapassará os EUA como maior economia do mundo.

Juntos, Brasil, Rússia, Índia e China representam 40% da população mundial e mais de um quarto da superfície terrestre. Suas economias crescem a um ritmo de 10%, ou talvez mais, enquanto as economias ocidentais tendem a se expandir a um quarto desse ritmo. Como oficinas do mundo, estão exportando bilhões de dólares a cada dia, tanto para nações ricas quanto entre si.

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