O Ciclo Econômico

O Ciclo Econômico

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Não muito depois de assumir o cargo de ministro da Fazenda, Gordon Brown disse em vários discursos que queria libertas a Grã-Bretanha do velho ciclo de “altos e baixos”. Isso foi música para os ouvidos de todos. O país tinha passado por uma série desagradável de recessões causadas por uma economia superaquecida. Seus cidadãos estavam prontos para abrir mão de um pouco de altos, caso isso significasse não ter de aguentar mais uma crise.

Pouco mais de uma década depois, Brown, já primeiro-ministro, parou de repetir o mantra. A economia rumava para uma recessão e para a pior crise imobiliária de que qualquer um podia se lembrar, se não da história. O mais vergonhoso foi que a recessão mostrou-se pior do que aquela criada por seus adversários políticos, os conservadores, quando ocuparam o cargo. À parte o rubor de Brown, uma coisa ficou clara: os relatos da morte do ciclo econômico foram prematuros demais.

Graças à sua própria natureza, as economias veem-se sujeitas a ciclos de altos e baixos: os mercados oscilam da confiança ao pessimismo e os consumidores vão da cobiça ao medo. O que controla essas variáveis, porém, é algo que ainda não compreendemos, pois elas estão sujeitas aos caprichos da natureza humana. E, como mostraram as experiências de Brown, as tentativas de domar o ciclo tendem tristemente ao fracasso.

Em tese, deve haver um nível ideal de atividade econômica no qual um país pode se manter indefinidamente. Chamam a isso de pleno emprego; todos os elementos de produção em uma economia são usados em sua capacidade ideal. A inflação não precisa aumentar e a economia pode crescer em uma taxa consistente.

Na prática, porém, esse ponto ideal nunca foi atingido. A história já viu ciclos de diversos tipos. A Bíblia, por exemplo, refere-se a períodos de abundância seguidos de anos de fome. O mesmo ritmo se aplica às sofisticadas economias de alta tecnologia do século XXI.

“O ciclo econômico está com os dias contatos, principalmente graças ao governo.” – Ironia, Paul Samuelson

Todas as grandes economias – inclusive os Estados Unidos – sofrem essas importantes oscilações na atividade econômica, que foram documentadas oficialmente pela primeira vez em 1946 por Arthur Burns e Wesley Mitchell.

A Tendência ao Crescimento

Toda economia tem uma taxa de “tendência” ao crescimento – a velocidade com que a economia tem tendido a crescer nas últimas décadas. No caso dos EUA, em anos recentes, a taxa de tendência ao crescimento tem ficado em torno de 3%, enquanto no Reino Unido e em boa parte da Europa, tem sido levemente menor, em torno de 2,5%, o que significa que a região tem se expandido em um ritmo mais lento, no Brasil a taxa se configura sempre abaixo de 2,5%. O ciclo econômico (também chamado de ciclo de negócios) é simplesmente uma flutuação da atividade econômica, acima ou abaixo dessa taxa de crescimento. A diferença entre as duas é conhecida como lacuna de produção. Um ciclo econômico compreende o tempo que leva para que uma economia passe por uma fase de alta, uma de baixa e volte à sua tendência habitual.

Na alta, a economia pode crescer muito depressa, mas geralmente essa expansão tem vida breve, dando lugar à queda em território negativo – ou seja, à contração da economia. Se a economia se contrai por dois trimestres sucessivos, tecnicamente está em recessão. Esta caminhada está de mãos dadas com o aumento do desemprego e a redução do lucro das companhias.

Por Que Ciclo?

Há diversas explicações para os ciclos, embora nenhuma seja tão convincente quanto o fato fundamental de que os seres humanos são criaturas emocionais, podendo passar rapidamente do otimismo ao pessimismo e vice-versa. Uma explicação envolve a política monetária: mudanças nas taxas de juros, tanto por bancos privados quanto pelos bancos centrais, têm como efeito a aceleração ou desaceleração do crescimento econômico, bem como da inflação e do desemprego. Outra explicação técnica gira em torno do ritmo com que as empresas acumulam estoques – a reserva de produtos que não foram vendidos. A tendência é manter um estoque elevado quando o ciclo é de crescimento, pois esperam que a alta continue, e de esgotá-lo quando a economia se contrai. Nos dois casos, isso faz com que as oscilações sejam mais violentas do que deveriam ser.

A experiência humana também é um fator importante. Alguns dizem que as sementes de uma crise financeira são plantadas no ano em que se aposenta o último banqueiro a vivenciar a crise anterior. Noutras palavras, quanto mais pessoas se esquecem das consequências duras de uma crise, maior a probabilidade de erros semelhantes serem cometidos novamente, gerando outra bolha.

Além disso, eventos inesperados fazem com que a economia pule de um ciclo para outro. É claro que poucas pessoas esperavam a crise de crédito que começou em 2007, ou a queda nos preços do petróleo um ano depois. Juntas, transformaram uma fase de queda em uma recessão global. Talvez a economia se comportasse de maneira mais previsível se não houvessem esses choques.

Outros desconfiam que a culpa cabe em parte aos políticos, que às vezes deixam a fase alta sair do controle para se aproveitarem do “fator de bem-estar” gerado, por exemplo, por grandes lucros, valorização dos imóveis e taxa de emprego elevada. Seguem políticas pró-cíclicas injetam ar na bolha – em vez de políticas anticíclicas, destinadas a fazer a bolha murchar suavemente antes que exploda.

Predizendo o Rumo

A importância do ciclo econômico é clara. É crucial ter-se alguma ideia de quando a economia está prestes a parar, e os governos empregam equipes de economistas pra tentar diagnosticar isso. Nos EUA, os principais especialistas estão no Escritório Nacional de Pesquisa Econômica; no Reino Unido e no Brasil, no Tesouro. No passado, as duas organizações se esforçaram, mas volta e meia acabam redefinindo sua estimativa sobre o início e o fim de um ciclo anos (ou mesmo décadas) após o evento.

O problema é que a duração dos ciclos pode variar drasticamente (veja o quadro); assim, mesmo que o ponto inicial seja identificado de forma correta, a estimativa sobre seu término pode cair bem longe do alvo.

Muitos, inclusive George Soros, o mais famoso gestor de fundos de cobertura do mundo, disseram que a crise do começo da década de 2000 foi provocada pelo final de um “superciclo”, no qual as pessoas foram acumulando mais e mais dívidas ao longo de décadas. Seria seguido, acrescentou, por uma queda similarmente longa, quando as pessoas teriam que pagar por tudo isso.

Para os economistas, a maior frustração é que os ciclos econômicos desmontam os complexos modelos usados para prever o rumo da economia. Esses modelos computadorizados, no qual despejam todos os dados que conseguem encontrar sobre empregos, preços, crescimento e assim por diante, geralmente presumem que a economia vai seguir sempre uma linha mais ou menos reta. No entanto, a experiência mostra que não é bem assim.

 

Ciclos Econômicos

Cada parte da economia sofre altos e baixos segundo seu próprio ritmo, e, a partir desse fato, os economistas idealizaram diversas classificações para os ciclos:

  • Ciclo Kitchin (3 – 5 anos) Refere-se ao ritmo com que as empresas acumulam estoques, o que, por sua vez, pode fazer com que a economia do país acelere ou refreie.
  • Ciclo Juglar (7 – 11 anos) Relaciona-se com as oscilações de valores investidos pelas empresas em suas fábricas e serviços – de modo geral, dura aproximadamente o dobro do ciclo de Kitchin. É ao ciclo Juglar que os economistas se referem quando falam de ciclos econômicos.
  • Ciclo Kuznets (15 – 25 anos) É o período entre dois picos de gastos privados ou públicos em investimentos de infraestrutura, como estradas e ferrovias.
  • Onda ou Ciclo Kondratiev (45 – 60 anos) Também conhecido como superciclo, refere-se mais genericamente às fases do capitalismo. A implicação é que a cada 45 ou 60 anos há uma crise no capitalismo que leva as pessoas a questionarem a maneira como a economia é estruturada e a forma como funciona.

 

Fases do ciclo econômico

O crescimento econômico é sempre acompanhado por flutuações periódicas da atividade econômica: uma alternância entre a prosperidade e a recessão nos volumes de produção, investimentos, níveis de renda, preços, taxa de desemprego, taxas de juros e cotização de títulos financeiros. Distinguem-se quatro fases sucessivas no ciclo econômico: declínio, depressão, recuperação e boom.

Recuperação: A fase de recuperação ocorre após se chegar ao ponto mais baixo da depressão. Esta fase se caracteriza pelo aumento da produção e diminuição da taxa de desemprego. Enquanto a economia não atingir a capacidade produtiva plena, o nível de inflação será baixo.

BoomEste é o ponto mais alto de todas as fases do ciclo econômico. Nele a taxa de desemprego atinge o nível mínimo ou mesmo desaparece, a economia opera em potência plena e todos os recursos de trabalho e capital disponíveis no país são engajados na produção. Via de regra, as pressões inflacionárias nestes períodos aumentam.

Declínio: Este é o período em que diminui o volume da produção e a atividade empresarial. Se caracteriza por um aumento do desemprego. Em declínio será considerado o país no qual se verifique uma quebra na actividade empresarial durante mais de seis meses consecutivos.

Depressão: A depressão é o “ponto mais baixo” ao qual caem a produção e a percentagem de pessoas empregadas. A depressão acaba sendo o precursor e parte final do declínio, já que este último não dura muito tempo. No entanto, houve exceções a essa regra. Uma delas foi, por exemplo, a crise econômica dos anos 30, que durou quase dez anos, apesar das constantes flutuações na atividade empresarial.

Uma resposta

  1. […] O problema da equação – e, na verdade, de quase todas as teorias econômicas – é que os mercados têm se comportado de maneira irracional desde a aurora dos tempos. Altos e baixos parecem ser um componente inevitável do capitalismo de mercado. […]

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