Tecnologia | O Combustível das Revoluções Industriais

postado em: Idea, World Economy | 0

Tempo de Leitura: 6 Minutos

Por mais que queiramos romantizá-la, a vida na Inglaterra do século XVIII não era lá muito arcadista. A maioria das famílias vivia presa a uma existência de subsistência, mal ganhando o suficiente para sobreviver. Espantoso, mas 75% das crianças nascidas em Londres morriam antes dos cinco anos. Contudo, entre 1750 e o início do século XIX, tudo mudou radicalmente. A expectativa de vida aumentou, assim como a população e sua riqueza. Poucos períodos econômicos foram mais marcantes que o da Revolução Industrial.

Por trás dessa transformação havia uma nova tecnologia. A invenção da máquina a vapor e o aproveitamento de combustíveis fósseis como o carvão mudaram subitamente a maneira como as pessoas viviam, remodelando horizontes sociais e artísticos. Foi a era de Wordsworth e de Turner, uma época em que a arte expressava tanto encanto quanto horror diante das mudanças profundas que estavam acontecendo; e um período de insegurança política que coincidiu com a Revolução Francesa e a Independência norte-americana.

Entretanto, essa famosa mudança de cenário não foi a única revolução econômica da história. Através dos séculos, a humanidade avançou aos trancos e barrancos à medida que se inventavam novas tecnologias. Geralmente, os trancos foram totalmente inesperados, mas provocaram mudanças radicais na prosperidade e na interação humanas.

Os historiadores da economia consideram que desde o século XVIII tivemos não apenas uma, mas três revoluções industriais – que eles veem como mudanças estruturais e não cíclicas; noutras palavras, mudanças nas próprias fundações da economia, em vez dos rotineiros altos e baixos.

A Primeira Revolução Industrial

Ocorreu no século XVIII – com a invenção da máquina a vapor – até o início do século XIX. Antes disso, as pessoas dependiam da tração animal ou motriz natural – a força do vento, da água ou de animais como cavalos e bois – para sobreviverem. Depois, conseguiram usar o carvão para impelir as máquinas, o que aumentou a produtividade. Então, dominamos a criação de máquinas de metal que deram origem às primeiras fábricas de verdade – a grandiosa encarnação da divisão do trabalho proposta por Adam Smith. No início, a revolução ocorreu na Inglaterra, mas não tardou a se espalhar pela Europa e, depois, pelos Estados Unidos.

Os efeitos da revolução foram profundos. Até então, o Produto Interno Bruto per capita do Reino Unido – uma medida de geração de riqueza – vinha se mantendo estático desde a Idade Média. De repente, passou para um patamar drasticamente mais elevado. Aos olhos de alguns economistas, isso se deu quando as economias ocidentais escaparam da armadilha malthusiana, que as condenava a um crescimento estagnado por conta dos limites da população. Com o aumento da riqueza e da expectativa de vida, aumentou o tamanho da família média, e a população da Inglaterra e Gales passou de cerca de 6 milhões no século XVIII para mais de 30 milhões no final do século XIX.

“O impulso fundamental que põe em marcha o motor capitalista provém dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, de novos mercados e de novas formas de organização industrial criadas pela iniciativa capitalista”Joseph Schumpeter

A Segunda Revolução Industrial

As vezes também chamada de revolução elétrica ou técnica, viu a humanidade desenvolver a metalurgia (criando o aço e outros metais), dominar a eletricidade e explorar o petróleo cru para criar petróleo refinado e gasolina. Foi essa era – uma extensão da primeira revolução – que deu ao mundo o automóvel e o aeroplano, bem como as corporações internacionais e o telefone. Ela também viu a Grã-Bretanha começar a perder sua influência global, com os EUA e a Alemanha assumindo rapidamente suas posições como florescentes superpotências econômicas globais.

A Terceira Revolução Industrial ou A Era dos Computadores

Foram tantos os avanços recentes na tecnologia que muitos economistas identificam uma terceira revolução industrial, estendendo-se desde o final da década de 1980 – uma revolução provocada pelo desenvolvimento do computador e da internet -, que revolucionou a comunicação e o comércio mundial. No século XXI, tornou-se possível transferir grandes quantidades de capital (riqueza e ativos) de um canto do mundo para outro apertando um simples botão. As companhias foram capazes de terceirizar divisões inteiras de seus negócios na Índia, China e outros países graças a avanços na comunicação de banda larga, proporcionando bilhões de dólares em economia e aumentando seus lucros.

Tal como ocorreu nas revoluções anteriores, esse salto tecnológico coincidiu com a ascensão de novas possíveis superpotências, ávidas por se aproveitar da mudança – neste caso, a China e a Índia. A ascensão desses países contribuiu para o mais longo período de crescimento econômico mundial de que se tem registro.

Embora seja certo que houve um salto tecnológico, alguns duvidam que a nova economia da internet represente uma mudança tão significativa quanto as vistas nas revoluções anteriores. Por mais profundas que tenham sido as mudanças recentes, elas não causaram – segundo o economista Robert Gordon, da Universidade Northwestern – um impacto tão profundo sobre as vidas das pessoas, tais como a eletricidade, o transporte de massas, o cinema, o rádio ou os encanamentos domésticos.

Revoluções Futuras

A era da informática pode ser apenas o começo de uma revolução que irá transformar os próprios seres humanos. Há muitas evidências a sugerir que a decodificação do genoma humano pode levar a grandes avanços na capacidade humana. Numa possível biorrevolução, em breve os humanos podem ser capazes de obter o controle sobre sua estrutura genética, e, embora atividades como clonagem humana ainda sejam muito controvertidas, alguns suspeitam que pode haver nela a oportunidade de avanços econômicos para a humanidade no futuro. Além da genética, a exploração do Aeroespaço e as novas descobertas em Biotecnologia e Bioquímica podem abranger múltiplas formas de aplicações comerciais, industriais e militares.

Poucas pessoas anteviram a capacidade revolucionária do computador ou a extensão com que a internet mudaria a economia mundial. É provável que novos avanços tecnológicos tornem o mundo do futuro um lugar totalmente irreconhecível para a maioria de nós.

Salto de Rã Tecnológico

Entre os indubitáveis marcos do progresso, embora não conte propriamente como uma revolução, acham-se as tecnologias conhecidas como saltos de rã. Originalmente, muitas partes do mundo devem sua prosperidade a infraestruturas dispendiosas – os trilhos da estrada de ferro ou as redes de transmissão de energia elétrica. As partes do mundo sem esse legado de infraestrutura simplesmente não poderiam se desenvolver com rapidez.

No entanto, o celular levou a telefonia a vastas extensões da África onde teriam sido pouco econômico construir uma rede. Pequenas usinas de energia solar prometem fazer algo similar, proporcionando eletricidade para comunidades que nunca haviam se beneficiado da eletricidade. Está para se ver se isso significa, como alguns suspeitam, uma mudança gradual ao redor do mundo, passando para cidades e comunidades menos centralizadas, embora os ambientalistas acreditem que pode ser uma resposta à poluição e às mudanças climáticas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.