A Vida Secreta de Walter Mitty

A Vida Secreta de Walter Mitty

postado em: Making Decisions, Philosophy | 0

Tempo de Leitura: 12 Minutos

Publicado originalmente numa edição da The New Yorker, em 1939, o conto que inspirou o filme foi criado por James Thurber e narra a vida deste tal Walter: um sujeito acanhado que vive num mundo fantástico e cheio de aventuras dentro da própria mente.

O que nem Thurber esperava, era pelo tamanho do sucesso do seu personagem. Tanto que Walter não apenas ganhou um livro inteirinho por conta, como também lugar no imaginário norte americano, a ponto de parar na terminologia militar (quando um sujeito quer ser soldado, mas não leva jeito nenhum pra coisa, eles o chamam de Walter) e até no site oficial do Snoopy (que descreve o cãozinho como um Beagle com complexo de Walter Mitty).

Walter Mitty (Ben Stiller) é mais uma daquelas pessoas que vive uma rotina monótona e nunca sai dela. Mora numa cidade grande, trabalha oito horas por dia para pagar as contas e passa o tempo livre na internet. Sua vida se resume a isso, não tem ação, aventura, mudanças e muito menos motivação, a não ser quando ele viaja em sua mente e começa a imaginar uma situação incrível acontecendo bem ali onde ele está. Mas o momento sempre fica somente na sua cabeça, quando ele volta à realidade as coisas continuam iguais.

A vida secreta de Walter Mitty
de James Thurber

– Vamos atravessar! – a voz do Comandante era como o quebrar de uma fina camada de gelo. Estava de uniforme de gala e tinha o boné branco, cheio de galões, caído displicentemente sobre um dos olhos frios e cinzentos.
– Não vamos conseguir, Senhor Comandante. Vem aí um furacão, se quer saber a minha opinião.
– Não quero saber a sua opinião, Tenente Berg – disse o Comandante – Potência máxima!

Aumentem a velocidade de rotação até os 8.500! Vamos atravessar!Intensificou-se o bater dos cilindros: tá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá! O Comandante ficou por um momento a observar o gelo que se formava na janela do piloto. Em seguida girou uma fileira de botões complicados.

– Liguem o motor auxiliar número 8! – gritou.
– Liguem o motor auxiliar número 8! – repetiu o Tenente Berg.
– Potência total na torre número 3! – gritou o Comandante.
– Potência total na torre número 3!

A tripulação, ocupada nas várias tarefas dentro do gigantesco hidroavião da Marinha, propulsionado por oito motores, entreolhava-se e sorria.

– O Velho vai fazer-nos atravessar – diziam entre si – O Velho não tem medo do Inferno…
– Não vá tão depressa! Você está correndo demais! – disse a Sra. Mitty – Por que você dirige tão rápido?
– Hã? – disse Walter Mitty. Espantado, olhou para a mulher, sentada no banco ao seu lado.

Pareceu-lhe muito pouco familiar, como uma desconhecida que no meio da multidão lhe tivesse gritado uma coisa qualquer.

– Você estava a mais de oitenta por hora – disse – Você sabe que não gosto de andar a mais de sessenta. Você estava a mais de oitenta.

Walter Mitty continuou a conduzir em silêncio até Waterbury, enquanto o rugido do SN202, que enfrentava a pior tempestade em vinte anos de Aviação Naval, desaparecia nas remotas e íntimas rotas aéreas do seu pensamento.

– Você está ficando tenso outra vez – disse a Sra. Mitty – Você está num daqueles dias. Devia deixar que o Dr. Renshaw o examinasse.
Walter Mitty parou o carro em frente ao prédio onde a mulher ia ao cabeleireiro.

– Lembre-se de comprar as galochas enquanto estou no cabeleireiro – disse ela.
– Não preciso de galochas – disse Mitty.

Ela devolveu o espelho à bolsa.

– Já discutimos isto – disse, saindo do carro – Você não é mais uma criança.

Ele fez o motor acelerar um pouco.

– Por que você não coloca as luvas? Você perdeu as luvas? Walter Mitty levou a mão ao bolso e tirou as luvas. Colocou-as, mas depois que a mulher virou-se e entrou no prédio e que ele chegou ao sinal, começou a tirá-las novamente.

A Vida Secreta de Walter Mitty - Filme com Ben Stiller
A Vida Secreta de Walter Mitty – Filme com Ben Stiller

– Vamos com esse carro! – repreendeu o policial, quando o sinal abriu. Mitty tirou apressadamente as luvas e avançou num solavanco. Dirigiu sem destino pelas ruas durante algum tempo e passou em frente ao hospital, a caminho do estacionamento.

– …É o banqueiro milionário, Wellington McMillan – disse a bonita enfermeira.

– Sim? – respondeu Walter Mitty, tirando lentamente as luvas – Quem está tomando conta do caso?

– O Dr. Renshaw e o Dr. Benbow, mas há também dois especialistas, o Dr. Remington de Nova Iorque e o Dr. Pritchard-Mitford de Londres. Veio de avião.

Abriu-se uma porta em um corredor comprido e frio e apareceu o Dr. Renshaw. Parecia aturdido e extenuado.

– Olá, Mitty – disse – Estamos passando um mau bocado com McMillan, o banqueiro milionário que é amigo íntimo de Roosevelt. Obstrução terciária de canal. Gostaria que você o olhasse.

– Com muito prazer – disse Mitty.

Na sala de operações houve apresentações sussurradas.

– Dr. Remington, Dr. Mitty. Dr. Pritchardd-Mitford, Dr. Mitty.

– Li o seu livro sobre estreptotricose – disse Pritchard-Mitford, apertando-lhe a mão – Um trabalho brilhante.

– Obrigado – respondeu Walter Mitty.

– Não sabia que você estava nos Estados Unidos, Mitty – resmungou Remington – Chamaram-me ao Mitford para ensinar o padre nosso ao vigário!

– Você é muito amável – disse Mitty.

Uma máquina enorme, complicada, ligada à mesa operatória, com muitos tubos e fios, começou nesse momento a fazer poquetá-poquetá-poquetá. – O novo aparelho de anestesia está falhando! – gritou um estagiário – Não há ninguém no país que saiba consertá-lo!

– Fique quieto! – disse Mitty numa voz baixa e controlada.

Correu para a máquina, que agora fazia poquetá-poquetá-pip-poquetá-pip. Pôs-se a dedilhar delicadamente uma fileira de botões cintilantes.

– Dêem-me uma caneta-tinteiro! – disse, áspero.

Alguém lhe passou uma caneta-tinteiro. Ele puxou um pistão avariado da máquina e introduziu a caneta no seu lugar.

– Isto vai agüentar uns dez minutos – disse – Continuem a operação.

Uma enfermeira veio correndo e sussurrou uma coisa qualquer a Renshaw, e Mitty viu o médico empalidecer.

– Instalou-se a coriopse! – exclamou Rennshaw, nervoso – E se você tomasse o meu lugar, Mitty?

Mitty olhou para ele, para a figura amedrontada de Benbow, que suava em bicas, e para a fisionomia carregada e hesitante dos dois grandes especialistas.- Se você prefere – disse.

Vestiram-lhe uma bata branca; ajustou a máscara e colocou umas luvas finas; as enfermeiras passavam-lhe reluzentes instrumentos cirúrgicos…

– Para trás, chefe! Cuidado com esse Buick! – Walter Mitty pisou fundo no freio – Você está na contra-mão! – disse o empregado do estacionamento, olhando fixamente para Mitty.

– Ih! é! – murmurou Mitty.

Com cautela, começou a dar marcha-à-ré na pista que dizia “Saída”.

– Deixe-o aí! – disse o empregado – Eu o dirijo.

Mitty saiu do carro.

– Olhe, é melhor deixar a chave.

– Ah! é! – disse Mitty, passando-lhe a chave da ignição.

O empregado saltou para dentro do carro, recuou com uma perícia insolente, e o arrumou no lugar.

São tão terrivelmente convencidos, pensou Walter Mitty, caminhando pelas ruas do centro da cidade; pensam que sabem tudo. Uma vez tentara tirar as correntes das rodas do carro, nos arredores de New Milford, e as enrolou todas nos eixos. Teve que vir um homem num reboque para desenrolá-las. Um jovem mecânico que não parava de rir. Desde então a Sra. Mitty sempre o fazia levar o carro à oficina para tirarem as correntes. Da próxima vez, pensou, vou com o braço na tipóia; eles assim já não vão sorrir. Vou com o braço na tipóia e eles hão de ver que eu não poderia de modo nenhum tirar as correntes sozinho. Enterrou o pé na lama do passeio. – Galochas – disse para consigo mesmo, e pôs-se à procura de uma sapataria.

Sentimos aquela vontade inexplicável de mudar, de viver e de fazer tudo o que sonhamos e ainda não fizemos.
Sentimos aquela vontade inexplicável de mudar, de viver e de fazer tudo o que sonhamos e ainda não fizemos.

Quando voltou para a rua, com as galochas numa caixa debaixo do braço, Walter Mitty começou a pensar qual seria a outra coisa que a mulher lhe tinha dito para trazer. Ela falara duas vezes, antes de saírem de casa para Waterbury. De certa forma ele detestava estas viagens semanais à cidade – sempre fazia alguma coisa errada. Lenços de papel – pensou – pomada, lâminas de barbear? Não. Pasta de dentes, escova de dentes, bicarbonato, esponja-de-aço, desiderato, estardalhaço? Desistiu. Mas ela ia lembrar-se. “Onde está o não-sei-o-quê”, perguntaria. “Não me diga que esqueceu do não-sei-o-quê”. Passou um rapaz a vender jornais e a gritar uma coisa qualquer sobre o julgamento de Waterbury.

– …Talvez isto lhe refresque a memória – O promotor agitou uma arma pesada diante da figura calma no banco das testemunhas – Já viu isto alguma vez?

Walter Mitty pegou a arma e a examinou com perícia.

– É a minha Webley-Vickers 50.80 – disse calmamente.

Um zum-zum de agitação percorreu o tribunal. O Juiz apelou à ordem.

– Imagino que o senhor seja um atirador de primeira com todo o tipo de armas de fogo – prosseguiu o promotor, num tom insinuante.

– Objeção! – gritou o advogado de Mitty – Demonstramos que o réu não pode ter disparado.

Demonstramos que ele tinha o braço direito na tipóia, na noite de 14 de julho.

Walter Mitty levantou a mão por um momento e os advogados se calaram.

– Com todo o tipo de arma conhecido – disse, tranqüilo – eu poderia ter matado Gregory Fitzhurst a cem metros de distância com a minha mão esquerda.

Gerou-se o pandemônio na sala. Elevou-se sobre o tumulto um grito de mulher e de repente uma bela morena estava nos braços de Mitty. O promotor esbofeteou-a selvagemente. Sem se levantar da cadeira, Mitty deu ao homem o que ele merecia, na ponta do queixo.

– Cão desprezível!…

“Ração pra cachorro”, disse Walter Mitty. Estacou o passo e os prédios de Waterbury emergiram do tribunal nebuloso para novamente o rodearem. Uma mulher que passava sorriu.

– Ele disse “ração pra cachorro” – disse ao seu companheiro – Aquele homem disse “ração pra cachorro”, falando sozinho.

Walter Mitty apressou-se. Entrou numa loja de animais, não a primeira que encontrou mas uma segunda, menor, um pouco acima na mesma rua.

– Eu queria ração pra cachorro de raça, pequeno – disse ao empregado.

– Deseja alguma marca em particular?
O melhor atirador do mundo pensou por um momento.

– Na caixa está escrito: “Os cachorros ladram por ela” – disse Walter Mitty.

A mulher sairia do cabeleireiro em quinze minutos, pensou Mitty olhando para o relógio, se não tivesse problema para secar os cabelos; às vezes havia problema para secar os cabelos. Ela não gostava de chegar primeiro ao hotel; queria que ele estivesse ali à espera, como de costume. Ele encontrou uma poltrona de couro na entrada, de frente para uma janela, e colocou as galochas e a ração pra cachorro no chão. Pegou um velho número da revista Liberty e afundou-se na poltrona. “Pode a Alemanha Conquistar o Mundo pelo Ar?” Walter Mitty olhou para as fotografias de bombardeiros e de ruas destruídas.

– …O bombardeio deixou o jovem Raleigh muito nervoso, Capitão – disse o Sargento.

O Capitão Mitty levantou os olhos para ele, por entre os ralos cabelos despenteados.

– Metam-no na cama – disse, cansado – Com os outros. Vou voar sozinho.

– Não pode fazer isso, Capitão – disse, ansioso, o Sargento – São necessários dois homens para controlar esse bombardeiro e os inimigos estão fazendo do céu um inferno. O palco dos combates vai daqui até Saulier.

– Alguém tem que chegar àquele paiol – disse Mitty – Lá vou eu. Uma dose de conhaque?

Serviu uma dose para o Sargento e outra para si. A guerra trovejava e gemia à volta da trincheira e fustigava a porta. A madeira estalou e farpas atravessaram a sala.

– Foi por pouco – disse o Capitão Mitty, despreocupadamente.

– O fogo de artilharia aproxima-se – disse o Sargento.

– Só se vive uma vez, Sargento – disse Mitty, no seu sorriso leve e rápido – Não é?

Serviu mais uma dose de conhaque e a engoliu de um trago.

– Nunca vi ninguém agüentar o conhaque como o senhor – disse o Sargento – Com o devido respeito, Capitão.

O Capitão Mitty levantou-se e pôs no ombro a sua gigantesca Webley-Vickers automática.

– São 40 quilômetros de inferno – disse o Sargento.

Mitty acabou uma última dose de conhaque.

– No fundo – disse suavemente – o que é que não é um inferno?

Aumentavam os tiros de canhão; ouviu-se o rá-tá-tá das metralhadoras, e veio de algum lugar o ameaçador poquetá-poquetá-poquetá dos novos lança-chamas. Walter Mitty foi para a porta da trincheira cantarolando “Auprès de Ma Blonde”. Virou-se e acenou ao Sargento: “Até breve!”, disse…

Algo lhe bateu no ombro.
– Estou à sua procura pelo hotel inteiro – disse a Sra. Mitty – Por que você teve de se esconder nessa cadeira velha? Como é que queria que eu o encontrasse?

– O cerco aperta-se – disse Walter Mitty vagamente.

– O quê? – disse a Sra. Mitty – Você trouxe o não-sei-o-quê? A ração pra cachorro? O que é que está dentro dessa caixa?

– As galochas – disse Mitty.

– Você não podia tê-las calçado na loja?

– Estava pensando – disse Walter Mitty – Nunca lhe ocorreu que eu às vezes posso estar pensando?

Ela olhou para ele.

– Quando chegarmos em casa vou ver se você tem febre – disse.

Passaram pelas portas giratórias que rangiam um tanto zombeteiramente quando empurradas. Estavam a dois quarteirões do estacionamento. Ao chegarem à esquina da farmácia ela disse: “Espere aqui por mim. Esqueci-me de uma coisa. É só um instantinho”. Foi mais do que um instantinho. Walter Mitty acendeu um cigarro. Começou a cair uma chuva fina. Ele pôs-se a fumar encostado à parede da farmácia… Endireitou os ombros e juntou os calcanhares. “Para o inferno com esse lenço”, disse Walter Mitty com desdém. Deu uma última tragada e atirou o cigarro no chão. Depois, com aquele sorriso leve e rápido brincando nos lábios, encarou o pelotão de fuzilamento, impassível, orgulhoso e desdenhoso. Walter Mitty, o invencível, impenetrável até o fim.

Ben Stiller e Sean Penn
Ben Stiller e Sean Penn

Deixe uma resposta